segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sobre exus, algumas considerações

No ambiente inebriante à beira da lagoa, os exus bebiam e entoavam seus cantos. O cheiro era forte e o ar pesava sobre os olhos. Ela olhava fixamente para um exuzinho (ele que me perdoe se não é assim que se fala de um exu) que puxava a cantilena. Maquiado e bem vestido, em preto e vermelho, estava o exu vaidoso. Era menino, mas trazia uma camada branca sobre a pele, como resultado da aplicação excessiva de algum pancake vagabundo, que lhe conferia um leve ar de sebo de vela. Boca e bochechas enrubescidas por algum batonzinho Marchetti, ou coisa que o valha completavam o visual do demônio.

Varreu com os olhos a roda de exus malvadinhos, e constatou que a tenra idade era comum a todos, com a exceção de uma pombagira-homem, bem velha já. Mas isso não a conferia liderança, ao menos aparentemente. Esse papel era desempenhado por um exu alto e menino também, devidamente maquiado, que usava uma longa capa preta e rubra. Este tentava retirar do corpo de outro homem uma entidade maluca que lhe havia baixado, fazendo seu corpo girar. Depois, disse-lhe ao pé do ouvido uma série de coisas que a fizeram querer ser uma brisa da lagoa para colher tais palavras entre a boca e a orelha que as trocavam.

Tinha ainda uma figura especialmente cativante ao olhar. Destacava-se por vestir branco e jeans, e pelo comportamento afetado de bicha francesa. Circulava calmamente e com o nariz bem empinado. Segurava uma taça de plástico vermelho numa das mãos e na outra um cigarro longo como o da pantera cor-de-rosa. Era uma figura solene, atemporal, e tranquilamente poderia ter sido pinçada na roda dos exus e posta em um restaurante fino, que não haveria de se mal-comportar. E vice-versa. Esse era o tal exu gay que povoaria as discussões e elucubrações dos próximos dias.

Tem um que de teatral, ela pensava, argumentava com o companheiro, mais versado nas artes dessa crença. Nas roupas, figurinos, maquiagem, nessa preparação ritual, tem sim um que de teatral.