quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Viagens oníricas, sonhos de outrem...

Às vezes escrever era como psicografar. Sabia que algo deveria sair, de si para o papel. Só não sabia ainda o que. Sempre fora assim. O novo olhar sobre o papel, depois de escrito, sempre a surpreendia.

Papel e caneta, sempre foram mais poéticos, como todas as coisas arcaicas, mas atualmente, quando algo tinha urgência de existir, de ser escrito, nascia direto nas teclas e na tela de seu computador. Essa sensação de ser a mão de uma caneta universal, simplesmente um meio, normalmente a acometia, e sabia que seus melhores textos não eram em verdade seus, e sim deles próprios, provenientes dessa linda vontade de nascer que a subjugava e a obrigava a escrever.

É claro, se questionava, se seriam mesmo seus os textos que concebia, e escrevia com a própria vontade? Seriam vivências e sentimentos verdadeiramente seus? Seriam realmente vivências e sentimentos de maneira geral? Ou seriam parte de um inconsciente coletivo, canalizado por ela em momentos de transe? Viagens oníricas, sonhos de outrem...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Às sétimas séries do Afonso Vizeu

Naquela manhã, ao ouvir a notícia, em um momento ou outro imaginou, que com certeza choraria, mais tarde, “na cama que é lugar quente”, como dizia uma amiga. Se fez de durona, e levou a coisa com uma pitada de alegria sarcástica, tal qual costumava fazer quando se sentia insegura. A notícia a tomou de surpresa, assim como a chuva.

Quis ainda, mais umas duas ou três vezes, ao longo da manhã, derramar uma lágrima, para aliviar os olhos, deixar-lhes transbordar.

Ao ouvir os protestos de todos os pequenos, ao lembrar que não teria tão cedo melhor motivo para sair da cama, foi de novo acometida pela enchente nos olhos. Não queria ir, embora o tempo todo estivesse esperando por isso.

E a chuva não deu tréguas, mais tarde em seu travesseiro. O conselheiro de todos os difíceis momentos, seu companheiro mais íntimo foi lavado por toda a água daquela tempestade.

Sabia ser uma mulher forte, embora por pequenos momentos se permitisse alguns pitis. Sabia que nada viria para ela que não pudesse suportar. Então, tinha certeza que outros motivos viriam a levantá-la da cama, ainda assim, tinha a plena certeza que nenhum deles teria aqueles olhinhos brilhantes e provocativos, e que muito provavelmente nenhum deles a instigaria tanto.

Depois da enchente, recolheu os panos molhados e foi estendê-los ao sol. Agradecia à vida por ter lhe proporcionado a oportunidade de ver tais olhinhos brilhando, de conhecer tais pequenos especiais. Enfim, por mais uma vez se apaixonar pela arte de educar.

domingo, 22 de novembro de 2009

Memória, marcada a ferro e fogo

Sua memória andava dizendo a que veio. Funcionava direitinho, lembrava de todos os seus números, e não eram poucos; Lembrava de todos os amores, com detalhes, sabia o que exatamente lhe encantara em cada um.

Um belo dia descobriu que havia lapsos. Notou então que guardava apenas o que lhe era agradável. Sua memória não guardava mágoas nem ressentimentos. Tinha de lutar com ela para não sorrir agradavelmente àquela pessoa que um dia tinha sido uma grande filha da puta.

Mas, as coisas mudam, a vida ensina. Rancor já não era a palavra. Ressentimento também não era exatamente o que sentia. Simplesmente havia matado certas relações em seu coração, para que fossem exatamente o que deveriam ter sido. Nada.

Havia de não conhecer tais seres, e não reconhecer em tais relações a si própria.

Marcada como a ferro e fogo estava sua memória, marcada com coisas que nem mesmo a mais relapsa das memórias poderia esquecer.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O Tempo da Vida

Nos últimos tempos lhe rondava a cabeça a idéia de abandonar a dor e o odor da putrefação e compor algo mais leve, como seu próprio estilo. Voltar às origens, esquecer de vez o que a fez como a fênix, queimar em brasa e renascer das cinzas.

Talvez devesse até mesmo agradecimentos a esses dois, afinal a dor e o prazer a fazem sentir viva. E seu renascimento, tal qual fênix, a tem feito uma nova pessoa. Mais encrespada, como gato assustado, desconfiada, é verdade, mas uma nova pessoa. Já havia dito, tem agora seu casco mais duro, a pele mais calejada.

Em história existem marcos, momentos representativos das mudanças e das transformações ocorridas, daí se exaltarem datas e grandes nomes. Na vida, assim como na história, lá estão os marcos a definir quando se passa de uma fase para outra.

Se há uma data, a data é hoje, e neste caso os grandes nomes são o seu próprio, e o do fiel escudeiro. Autor de uma certa solenidade conferida ao evento, assim como o fazia em praticamente todas as ocasiões. O fato, enfim, o tal marco, em linhas gerais, numa descrição não positivista é claro, devido à subjetividade fora a assinatura de sua própria carta de alforria, o rompimento formal com um outro tempo.

Como na história, na linha do tempo da sua própria vida, tudo era em verdade um processo, e ela mesma não ligava muito para datas. O amanhã já estava acontecendo, ali, hoje. E ademais, a próxima IDADE estava por vir... saíra da Idade Média, a das “Trevas” para entrar na Idade Moderna, curtindo o Renascimento.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Arte, ofício, necessidade 2 (um outro ofício)

A tarde estava quente e ela sentia, novamente, a sensação de torpor que o calor trazia, lembrando o verão, embora fosse, na verdade, uma primavera tardia. Obedeceu ao corpo e entregou-se à sesta, ainda que alerta, no intuito de não perder toda a tarde. Morfeu a prendia e seu filho a nutria de sonhos, fazendo com que fosse difícil, depois de haver sido envolvida, desvencilhar-se de seus tentáculos.

Sempre relutava, como se estivesse a sair do útero novamente quando tinha de acordar, tanto que por vezes preferia não dormir a ter de acordar.

De uns tempos para cá algumas coisas vinham tirando-a da cama cedo. Às seis, esbravejava, lutava mas, por fim, levantava. E tinha pela frente seu trabalho que a instigava e provocava.

Mentes abertas, febris, na puberdade, vivendo fortes emoções a cada instante eram seu instrumento de trabalho... transporta-los a outro tempo histórico, seu afazer. Talvez parecesse difícil, mas em verdade lhe encantava a possibilidade de fazer com que se identificassem a seus semelhantes no passado. Sabia que na história, haviam existido jovens o tempo todo, uns forçados a se tornarem adultos muito rápido, outros como os de nossos tempos, infantis por mais tempo, brincando com sua sexualidade.

Estes jovens de hoje a faziam sair da cama, seu mais sério caso de amor, para ir vê-los. A faziam crer na renovação de sua própria vida, e em momentos em que estava down, bastava estar com eles para tudo ir embora. Talvez, no meio disso tudo, não percebessem o que significavam para ela. E quanto a ela, tinha certo que o único jeito de retribuir era lhes dando o que tinha de melhor: educação, memória, história, sua vida inteira.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Thanks ; )

A dor não era perene, mas a recorria de quando em quando. Não era dor de amor, pois o amor já não a habitava havia muito tempo. Suas feridas, que ela lambia desde a última sexta-feira pediam um remédio forte. Mesmo que em doses homeopáticas, estava disposta a tomá-lo. Preceitos básicos das relações humanas a haviam abandonado, e a dor a havia encontrado com os olhos rasos d’água.

Não cairiam as lágrimas, morreriam na casca, pois já não se permitia tanto sofrimento por um caso morto e enterrado. Mas, quando olhava a si mesma no espelho e via uma nova mulher, não podia deixar de pensar na outra. Chegara ao fim do fundo da dignidade humana. Pensava que talvez devesse mesmo ter estado lá para então reconhecer-se bela diante do espelho.

Amava a si própria acima de tudo, e tinha fé. Fé nas pessoas, que nem mesmo a pior delas havia conseguido abalar, e ainda, fé nas relações humanas. Esse brinquedo com que muitos adoram jogar, era para ela o jogo da verdade.

Já não acreditava no amor monogâmico de contos de fadas, e sim na amizade. A lealdade era premissa de um bom jogo. Pensava que em nada a lealdade se assemelhava à fidelidade. Em verdade, a lealdade nada mais era do que a transparência pura e simples. Por isso, queria, por vezes, não assumir compromissos, nem fazer promessas que não pudesse cumprir. No momento preferia mesmo estar neste marasmo sentimental a entregar-se novamente.

Pretendia dos outros esperar o mínimo, e assim não cair do cavalo... Mas fazer o que, se ele lhe deu naquela noite o máximo, ou talvez justamente o necessário para a fazer levantar? Por alguns instantes, palavras em vão encheram a casa, e sua alma de alegria. Poderia ter estado ali muito tempo... talvez até tenha estado.

E, por esta tal lealdade, quis ela, então, agradecê-lo. Sua boca fraquejava, e não lhe saíam palavras. Bom, o papel aceita tudo, e assim, sobre o papel em branco, agradeceu-lhe o lindo sorriso e a breve, intensa e importante companhia, embora desejasse, realmente, ter salvo o jogo na fase anterior.