segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A Rua Pequenina

Ao andar pela rua pequenina, se tomou de nostalgia. Enquanto andava, reconhecia o que lhe era eterno.

A casa de Dona Maria, costureira, viciada em remédio para emagrecer, onde ainda hoje vivia a cadela galga, Fusca;

A de Dona Ema, a vizinha chata, que já não tão solitária quanto outrora, também já não havia ser tão chata, com sua dúzia de netinhos;

O salão da Nara, cabeleireira, ponto de encontro da mulherada da rua, e da comunidade negra da cidade, sempre cheio às vésperas do fim de ano.

Algumas coisas eram mutáveis na rua pequena e estreita com que desde sempre se identificara. A casa de Dona Leocádia, senhora de origem portuguesa, avó da amiga que lhe havia acolhido com carinho, não era mais a mesma. Já não tinha a pesada porta de madeira que as isolava do mundo, quando necessário.

À noite, porém, tudo voltava à sua própria eternidade. Os travestis tomavam conta das duas pontas da quadra. Às vezes se matavam pelo ponto e brigavam pelos clientes, que quase sempre apareciam em carrões.

Finalmente chegou ao seu destino, o também eterno sapateiro Sr. Valdir. Trabalhava bem e era justo ao cobrar. Encontrou-o sentado em seu cubículo, fungando um pouco de cola. Vícios, todos tinham.

Na casa ao lado, o serviço de tele-entregas, defronte, o protético e a seu lado o bom e velho cabeleireiro gay que gostava de garotinhos.

Os marcos de eternidade na identidade da comunidade da rua pequenina ali estavam, e poderiam passar desapercebidos para alguns, mas não para ela que um dia tinha feito parte daquela comunidade. Esperava que tais marcos fossem mesmo eternos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

2010... estamos aí

2009 estava a se despedir, deixando rastros de destruição. Levara o ídolo da infância, amigos de amigos, um antigo vizinho, a avó querida, um relacionamento azedo e alguns outros, desconhecidos. A morte andava por perto, tão perto que quase era possível tocá-la.

Lembrava sempre do misto de pena e incredulidade nos olhos das cartomantes, ao abrirem a carta da morte. Olhavam, coçavam o queixo, franziam a boca para um lado, erguiam a sobrancelha. Sempre tendiam a dizer que a morte era apenas uma mudança de situação, um desligamento, rompimento. Isso tudo, sempre, portas para novos mundos, novos momentos. Afinal, estavam certas de que nenhuma criatura no mundo voltaria a uma cartomante que lhes tivesse dado uma péssima notícia.

De fato, sabia ela, mortes eram mesmo mudanças, em si. Transformavam a ordem das coisas tal qual estabelecida, para compor uma nova. Essa nova ordem se constituía sobre as bases da ausência, ou, da presença da falta. Ainda assim uma nova ordem, e não necessariamente pior ou melhor que a antiga, simplesmente diferente.

Ela assistia se constituir sobre essas frágeis bases, um novo período, um novo ano. Vinda de família não religiosa, tendia a valorizar mais a entrada do ano novo, sempre com a expectativa das coisas novas e boas que viriam a acontecer. Com uma pitada de numerologia, e muitas simpatias e superstições, se preparava para o ano novo com muito afinco. Vestia roupas novas, calcinhas de cores (as cores de acordo com seus objetivos para o ano), comia lentilhas e as punha na carteira. Bebia champagne, comia uvas fazendo desejos e pulava ondinhas.

A sensação atual da ausência, o frio hálito da morte na nuca, só a faziam crer com mais força nos nascimentos e novidades que estavam por vir. Sagitariana que era, novidades em si já eram para ela motivo suficiente para alegria e entusiasmo. Então, tinha razões para crer que depois de tantas intempéries, as coisas estavam mesmo para melhorar.

Respirou fundo, se encheu de coragem. – Que venha 2010!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Vaidosa

De uns tempos prá cá andava vaidosa, com caminhar felino. Mesmo depois de sua elegia aos cosméticos, conseguiu se aprofundar ainda mais nessa área. Andava atenta demais aos detalhes, coisa que nunca fora. Tudo isso, sinais de uma paixão. Paixão nascente é coisa boa, tudo é exagerado e delicioso, claro, quando é recíproca. Neste caso era. Sentia crescer dentro de si, com uma força imensa uma louca paixão por si mesma, por ser mulher.

Perceber mais uma vez, que depois de tantos anos e sutiãs queimados, vivemos ainda no mundo dos homens, a fez entregar-se a essa paixão até os mínimos detalhes. Talvez não os mínimos, mas ainda assim detalhes demais para ela, que como já havia explicado, não era lá muito cuidadosa. Descobrira que os sutiãs por vezes eram armas a serem usadas... como num filme com Bowie que havia visto anos atrás... peitos assassinos. Peitos, bundas, bocas, cílios, num mundo masculino, todos os venenos estavam aí para serem usados.

Os escravos, antigamente, manuseavam químicas para intoxicar seus senhores... venenos eram misturados nos deliciosos manjares que as velhas cozinheiras punham à mesa para alimentar e deleitar os donos. Dores e delícias da mesa colonial, armas dos submissos, para não mais se submeterem.

Delícias femininas colocavam os homens como cãezinhos mansos, sabia ela. Assim, baixava mesmo a guarda e pintava as unhas, arrumava o cabelo e passava um gloss na grande boca que a herança genética africana lhe havia legado.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Solo

Estivera maturando idéias em crises internas nos últimos dias. Depois, veio a data, seu dia, com infindáveis comemorações, tal qual casamento de alemão. Aí se permitiu não maturar mais nada, só ir com a corrente...

Depois, os pensamentos voltaram... elucubrações sobre a solidão. Artista em apresentação solo. Solo nasce e solo morre. Faz duetos ao longo da vida, desafinados, descabelados. Depois vive o luto. O show não acaba até o solo final do artista, que segue vivendo...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Recebendo Dezembro

Depois de tormentas e tempestades, aguaceiros por todos os lados, finalmente se sentia numa grande calmaria. Pronta a se voltar a seus anseios e esquecer as habituais fugas à noite que tanto lhe consolavam e curavam as feridas, quanto por vezes às expunham ainda mais.

Carregava consigo amuletos trazidos das muitas noites de temporais que havia enfrentado. Trazia para seus textos as almas doidas que haviam cruzado seu caminho. Trazia as tristes também. Trazia a impressão de que à noite todos estavam em fuga e em busca. Fuga e busca de si mesmos.

Ela mesma andara fugindo. Fugindo do que fora e buscando o que viria a ser. Acreditava haver encontrado a quem tanto buscava, em casa, na cama, uma manhã dessas, de ressaca. Foi tomada por uma grande tranqüilidade, um sossego enorme. Sabia que não havia mais nada a procurar lá fora, na noite. Estava tudo ali mesmo, guardado dentro de seu próprio peito.

Seu dezembro havia chego trazendo calma, calor e segurança, como sempre fazia. Com o porém de talvez ser o segundo primeiro dezembro de sua vida. Após as instabilidades constantes de agosto, as lindas descobertas de setembro, os horrores de outubro e novembro, vinha agora seu dezembro, com seus panos quentes e seus calmantes analgésicos.

Faria da noite então, como dizia uma amiga, trabalho de campo, coleta de material para sua produção, que talvez não viesse agora a ser tão intensa, mas que com certeza abandonaria seu caráter um tanto incipiente.