Ao andar pela rua pequenina, se tomou de nostalgia. Enquanto andava, reconhecia o que lhe era eterno.
A casa de Dona Maria, costureira, viciada em remédio para emagrecer, onde ainda hoje vivia a cadela galga, Fusca;
A de Dona Ema, a vizinha chata, que já não tão solitária quanto outrora, também já não havia ser tão chata, com sua dúzia de netinhos;
O salão da Nara, cabeleireira, ponto de encontro da mulherada da rua, e da comunidade negra da cidade, sempre cheio às vésperas do fim de ano.
Algumas coisas eram mutáveis na rua pequena e estreita com que desde sempre se identificara. A casa de Dona Leocádia, senhora de origem portuguesa, avó da amiga que lhe havia acolhido com carinho, não era mais a mesma. Já não tinha a pesada porta de madeira que as isolava do mundo, quando necessário.
À noite, porém, tudo voltava à sua própria eternidade. Os travestis tomavam conta das duas pontas da quadra. Às vezes se matavam pelo ponto e brigavam pelos clientes, que quase sempre apareciam em carrões.
Finalmente chegou ao seu destino, o também eterno sapateiro Sr. Valdir. Trabalhava bem e era justo ao cobrar. Encontrou-o sentado em seu cubículo, fungando um pouco de cola. Vícios, todos tinham.
Na casa ao lado, o serviço de tele-entregas, defronte, o protético e a seu lado o bom e velho cabeleireiro gay que gostava de garotinhos.
Os marcos de eternidade na identidade da comunidade da rua pequenina ali estavam, e poderiam passar desapercebidos para alguns, mas não para ela que um dia tinha feito parte daquela comunidade. Esperava que tais marcos fossem mesmo eternos.
Viva a diversidade de um ambiente tão rico de aprendizados.
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