segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Carta

Ela pensara em escrever muitas vezes essa semana, embora não tivesse tentado uma única vez. Agora que tentava, não saía nada, nenhuma gota da garrafa seca de bebida da noite passada. Era assim que se sentia, pois tinha os pensamentos absortos em qualquer quem, qual ou que e preferia guardar pra si. O medo de proferir em voz alta, escrever e deixar registros, e fazer o pensamento ficar concreto, real.

Sua produção havia escasseado de dezembro para cá, e o blog estava com sede. Decidiu então publicar a carta de uma amiga. Uma espécie de confissão, auto-análise na busca pelo próprio conhecimento. Como ela própria enfrentava sempre muitas dificuldades em se desvendar, achava lindas e válidas essas tentativas de iluminar um dos lados da obscura personalidade de cada um.

Quando crianças, elas se escreviam, tal qual outras amigas, bilhetinhos, cartinhas e etc. Não raro essas cartinhas eram destinadas a si mesmas, com o fim de válvula de escape. Ainda assim eram enviadas e muitas vezes só faziam sentido para quem as havia escrito. A tal carta foi uma dessas,porém recente e mais madura. Parecia fazer sentido e ser bastante explicativa. Ela pensava um dia poder se definir tão bem assim.

“ (...) Precisava escrever, e me ver no papel, desenvolver uma relação dialética, acarear a teoria e a prática. Lembrei da terapia das cartas e bilhetinhos de quando éramos pequenas, então vou, novamente, escrever para ti, querendo me encontrar no destinatário. Vou me definir para quem mais me conhece. Sou uma pessoa inconstante.Ora gosto de rosas, ora as acho a expressão da dominação masculina. Confusa também, tendo a me apaixonar por pessoas apaixonadas, pela paixão das pessoas. Paciente com as crianças, estouro fácil com os adultos e me canso das pessoas, com suas manias. Acho que o tempo é o melhor remédio, mas também acho que o tempo é relativo. Tudo depende da entrega, e não me entrego fácil. Tenho medo de relações novas, e às vezes das velhas também. Tenho um cantinho secreto que é só meu. Considero a ultrapassagem uma invasão da minha liberdade. Detesto quando desconheço os outros, desconstruo a linda imagem que outrora eu tive, a substituo pela real face, às vezes até bem feia. Assim, detesto não saber o que esperar dos outros. Também quero que os outros saibam bem o que esperar de mim: tudo, ou nada. Sou oito ou oitenta, nunca me agradaram meios termos, apesar de adotar posturas diplomáticas na solução de conflitos. Não gosto de ver o circo pegar fogo, a não ser se for para deixar tudo queimar e começar de novo. Já fui carpinteira do universo. Hoje já não sou, só tenho uns rompantes. Sou insegura, embora tente demonstrar que está tudo bem. Não quero ser amada por todos, mas quero que os que me amem, amem loucamente. Às vezes me cansam as loucuras, mas são o que me encanta no ser humano. Quando gosto de alguém é de cara, não deixo para gostar depois. Normalmente sei quando vou me apaixonar e saio correndo. Quando num relacionamento sou curiosa e quero aprender logo tudo do outro. Às vezes vou até o fundo e canso, às vezes a paixão para mim está na descoberta. Normalmente me entrego demais e me encanta o conjunto. Sou melancólica, e embora o sorriso me desminta, ele às vezes é a minha armadura de guerreira. Não gosto de demonstrar fraquezas, e só as divido com meu travesseiro.

Ok, acho que já chega, ao menos pra esta carta, pois ainda tenho muito o que te contar das minhas coisas, a parte da carta que realmente te tem como destinatária. Além do mais a terapia tem que ser constante e em pequenos drops.

Bueno, mas a coisa rolou mais ou menos assim (...) Beijo, me liga. Te amo.”

Um comentário:

  1. Lindo! e a gente, por instantes acredita mesmo que é uma carta de amiga!

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