terça-feira, 29 de setembro de 2009

O TEATRO É MÁGICO

A arte dramática lhe enriquecera a alma. Saíra, àquelas duas noites intercaladas com o peito cheio de sonhos. Milhares de cores e sons, cheiros e sensações lhe circundavam. Se encontrara num mundo paralelo no qual só estivera na infância. Aliás, ela pensava ser prerrogativa básica para a apreciação de tal arte,um leve toque de imaturidade, de inocência. Ouvira as gargalhadas e as vozes em coro, e sabia que ali acontecera algo mágico. Uma reunião, no amplo sentido da palavra, uma comunhão. Ela percebeu que as pessoas que ali estiveram carregavam em si uma parcela, mesmo que ínfima, criança.
Todos permitiram que a alegria os invadisse e os fizesse esquecer que havia um mundo maior fora daquele teatro. E ela,como as crianças, se permitira encantar-se por um palhaço apaixonado e uma trapezista irrequieta. As trupes circenses, cada uma a seu modo, ficariam para sempre no coração daqueles, que então crianças, mergulharam em seu mundo de delírios.
Depois, se pegou em uma ressaca dramática, um enfaramento intelectual. Como se tivesse exagerado na dose, e precisasse assimilar. Já não sabia o que fazer com tantos sonhos. Toda a ação espera uma reação, e não sabia como reagir. Talvez devesse então, fazer uma pausa e presentear-se com um momento de introspecção. Inspirou, expirou, era momento de fazer a digestão.

sábado, 26 de setembro de 2009

Lavou, tá novo, secou, tá virgem!



Lavou, tá novo, diziam. Nada! Naquela manhã acordou cedo e foi se lavar. Tentava tirar de seu corpo as marcas das noites anteriores. Não adiantou. As marcas ficaram vincadas em seu ventre, onde de uns dias para cá, carregava uma dentadura que lhe mordia por dentro. Depois lagarteou na janela, como uma gata se debruçou, repousando a cabeça, pesada, nos braços.
Deus dá o frio conforme o cobertor, diziam. Será? Às vezes, simplesmente não se sentia capaz de suportar certas coisas que a vida lhe reservava. E este setembro não acabava. Fora um mês intenso, e não se atrevia a dar por acabado até que seu último dia se fosse. Contava nos dedos, pois se o outubro viesse tal qual setembro, seu cobertor não seria suficiente, apesar da contradição de o clima ficar cada vez mais ameno, à medida que o tempo se aproximava de seu dezembro.
A isso se somavam muitas marcas visuais. Lembranças de muitas cores e narizes de palhaços. Muitos sorrisos e gargalhadas. A comunhão com o sagrado palco a invadiu. Voltou a seu velho teatro, foi então que resolveu reencontrar seu personagem favorito, ver o mundo através dela. Rir do mundo e de si mesmo, já dizem, é mesmo o melhor remédio. E deu boas vindas à Comédia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Impressões

Impresso, imprimir, impressões.
Ela mediu-lhe os lábios, reconhecendo o território. O superior era pequenino e esforçado, enquanto que o inferior macio e reconfortante. De modo geral, não lhe eram estranhos. Tal território habitava os recônditos de sua memória e sabia já haver estado lá muito tempo antes.
Agora, sem a pressa e a avidez de outrora, entregou-se à tarefa por alguns momentos, embora o ambiente lhe parecesse estranho e inusitado. O cheiro era um combinado de colônia barata com cosméticos mofados e infestava o lugar. Não era um museu, mas louvava o antigo.
Ora, também ela louvava o antigo. Típico de quem cultua o passado, não conseguiu alcançar as mesmas sensações de antes. Era justamente o completo oposto. Se então houvera se sentido velha índia presa aos olhos de um lobo, agora sentia-se jovem e livre, uma criança com o mundo a descobrir.
O tempo é o melhor remédio, o tempo apura as curtidas e os melhores fermentados. O tempo é dividido por curtos marcos, impressões. A ela impressionavam mais uma vez, dez anos depois, os mesmos tais lábios, território de sonhos de sua infância.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Dor em DROPS

A dor não era perene. Ela se dividia em pequenos drops que lhe eram entregues nas ruas por desconhecidos, no trabalho por mal conhecidos e até mesmo por completos conhecidos, inimigos íntimos. Alguns drops a lembravam de um tempo com novas esperanças, que agora eram velhas desilusões.
Em que momento exatamente, teria ela soltado as rédeas da própria vida? Sentia-se, tal como outrora, uma velha índia, presa a um corpo jovem. O calendário foi se desfolhando, ao passo que tudo ficava mais distante. Dera as costas à própria história e fora viver uma forjada. Tudo se tinha tornado fora de controle.
Porém agora, sua vontade tinha vontade própria, e se sobrepunha. Voltar sobre os farelos de pão não podia, pois como na fábula, as aves os haviam comido. Decidiu pegar à esquerda na estrada de tijolos amarelos. Deu uma curva no lobo mau e foi à casa da bruxa má do leste tomar um chá.
Contos e fábulas haviam povoado seu imaginário desde muito cedo, e tinha superado os finais felizes, quando tinha 8 anos. Aprendeu a brincar com as possibilidades. Nem tão felizes como contos de fadas, nem tão tristes como novelas mexicanas seriam seus finais. Seriam como o soro caseiro contra a desidratação, uma pitada de sal, outra de açúcar: tal qual lágrima.
Seriam finais sem finais, finais estes sim, perenes. Como a vida, sal e açúcar na mesma lambida. Quando se brinca com possibilidades, deve-se tê-las na mão. Abrem-se portas, fecham-se portas, e ela deve apenas saber qual escolher.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Nature

Embora a linda primavera já desse sinais de extrema proximidade, vez por outra ainda se instalavam fortes ventos e bravas águas a cair.
Naquela segunda-feira cinzenta ela saiu à rua, desavisada das chuvas e trovoadas que estavam por vir. Seguiu andando pelas retas ruas de sua cidade natal, em dia de feriado.
Soprava o vento sul, com tal força que trazia seus cabelos totalmente desalinhados.
Se ela tivesse tido chance, talvez não tivesse escolhido lavar a alma daquela maneira. Ainda assim, aconteceu. A natureza se impôs e a fez assumir a estranha sensação de súbita sobriedade.
A água veio, torrencial, ajeitar-lhe os cabelos que o vento havia desfeito (gostava deles assim, escorridos). Ainda ajeitou-lhe outras coisas, deixando apenas o necessário. Foram por água abaixo, naquela tarde de segunda feira, todas as mágoas e fraquezas adquiridas nos tempos de casulo.
Do que ficou, quase nada. Quase tudo ali estava. Fez a chamada (vício de professora), braços, pernas, cabeça, sim, importante. Estava tudo ali. Apenas o necessário: corpo inteiro e peito aberto.

domingo, 6 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

Meninos

Sabia já tê-lo visto em algum lugar, por algum tempo, há muito tempo atrás. Ele, que era então um menino agora ostentava largos ombros e um corpo bem formado. Mantinha os leves traços orientais de outrora, e um ar travesso. O dia era cinza e úmido, e ambos carregavam milhares de coisas. Ele que era então um menino, levava agora um menino.
That pretty little thing... Aquela coisinha pequenina e expressiva, comunicava-se pelos cotovelos. Na carga genética, levava os olhos do pai, rasgados como os dos asiáticos. Tinha também um cabelo cor de mel, que devia ser proveniente de uma mãe, para ela desconhecida. Tinha uma graça própria da idade, devorava o mundo com os olhos, perguntava o universo e observava tudo.
Ela também observava. Ouvia, por sobre o ombro do pai, as conversações infantis. Curtia a cumplicidade entre os dois, o carinho. Aquele danadinho falava e erguia as sobrancelhas, fazendo gracinhas, tornando impossível para o pai, também um menino, não o agarrar abruptamente num forte abraço, ou pegar-lhe as bochechas, como quem quer eternizar um momento, como quem quer eternizar o menino.
Ela gostava dessas viagens de ônibus, pois tinha tempo para curtir as pessoas, como um voyer. Alguns desconhecidos lhe traziam sensações estranhamente familiares. Lembrou da infância e da infância com o seu menino, seu eterno companheiro, tão desejado. Amado com uma fraternidade dual que sua alma débil nunca conseguiu suprimir. Quis então ter eternizado todos os seus meninos, todos os meninos do mundo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

ARTE, OFÍCIO, NECESSIDADE

Abrindo suas asas por sobre este novo mundo, se entregara a um antigo hábito: escrever. Tal arte havia sido esquecida na monografia de faculdade e sentia que agora tinha uma relação mais madura com a coisa, mais pensada.
Realmente tinha certas obsessões compulsivas quanto à forma. Nunca escrevera como homem, talvez um dia viesse a fazê-lo, quando os compreendesse melhor. Já havia escrito poesia ruim e tinha medo dela em geral, embora demonstrasse uma certa atração por coisas que lhe causassem esta impressão. E definitivamente, nunca, nunca mesmo, conseguiria escrever em primeira pessoa.
Well, se a coisa é um diário, talvez fosse prudente adotar este ponto de vista... Ou trocar-lhe o nome, certo? Sim, pois preferia abandonar a idéia de um diário a ter de deixar de vivenciar estas experiências extra-corpóreas.
Também encontrava uma certa resistência em dar nomes a personagens. Na verdade tinha dificuldades em escolher nomes para tudo. Tinha medo de comprometer-se, de fazer uma escolha precipitada. De modo que quando foi dar um novo nome a seu novo brinquedinho, simplesmente não conseguiu. Assim sendo, deixou-se estar, e escreveu um diário em terceira pessoa.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Birth

Repentinamente sentiu-se livre. Estranhamente desimpedida das amarras e mordaças que a seguravam. Olhou em volta e percebeu que ainda estava trancada, de fato, naquela peça obscura. As cordas e nós ainda estavam lá, e aquele maldito pedaço de pano, ainda apertava sua língua, envolto em sua boca. Sem se mover, percebeu um cheiro doce de flores e um leve carinho caloroso de sol em seu rosto. Enfim a primavera. Sentia-se como uma borboleta, pronta para deixar seu casulo. Sabia que as amarras, assim como as lagartas, ela mesma as havia tecido.
Em um labirinto de imagens e sonhos via-se tramando fibra a fibra, as algozes de sua liberdade. Com resignação cerziu todo o seu invólucro. Só agora sabia, entendia, que tamanha resignação morava no fato de tais amarras não serem absolutamente uma mortalha. Este aroma leve e a brisa que quase podia sentir eram o prenúncio de uma transformação. Só então percebeu a física quântica, na escolha de não permanecer gorda lagarta, de ganhar asas, linda borboleta. E se acaso preferisse a noite, mariposa.
Então, deu meia-volta. Foi desfazendo cerzidos e tecidos, andando sobre seus próprios passos. Catando as lembranças que lhe fossem úteis e belas, para com elas adornar suas asas, seguiu. Com a mesma paciência usada na tessitura deste casulo, despiu-se de todas as amarras. Um a um foram caindo por terra os panos que a prendiam. Em um último esforço rumo à liberdade, cuspiu a mordaça imaginária que a calava. Enfim saiu de asas abertas para seu mundo novo, no qual tudo era o raro e imenso prazer da descoberta.