segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cosméticos

Não todas, mas muitas mulheres sentem um profundo orgulho besta ao olhar para seu arsenal de cosméticos. De todos os tipos: perfume, creminho, batom, rímel, sombra, base, pó, corretivo, cajal, delineador, esmalte, shampoo, condicionador, e até mesmo o reles sabonete tem lugar no coração das moças de todos os cantos. Fora de moda somente o bom e velho talquinho, que hoje encontra maior popularidade entre os velhinhos e as bundinhas de nenéns.

Enfim, meninas os encaram como seu material de trabalho, ou até mesmo conjunto de armas mortais. Aliados fiéis na arte da conquista, acompanham desde as feias até as mais belas. Desde as pobres, até as mais ricas, uma questão de filões de mercado, afinal obedecem todos os gostos e bolsos.

Ela mesma se achava um pouco alternativa, até desleixada em muitos momentos. Foi um clique, um tique, um lance fraco. Naquela noite se pegou fitando sua nécessaire recheada de seus companheiros cosméticos. Sentiu uma palpitação, depois teve uma atitude um pouco petulante, e ao final se envergonhou, e até riu desse tal orgulho besta que havia surgido em seu peito. Ora, amor por tais objetos, que embora sejam as armas da sedução, e por vezes os heróis da compostura, era uma coisa tão banal, que ia contra todos os seus princípios de ex-militante socialista.

Materialismo e propriedade privada dentro da caixinha transparente, e aquele amor que o apelo ao consumo a fazia sentir. Uma necessidade básica: cosméticos. Só mesmo o capitalismo para envolvê-la de maneira tão forte e imergi-la num mar de paixão cosmética.

sábado, 24 de outubro de 2009

O Poema

Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para que? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida...

Mário Quintana

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Só, nem ao menos Deus por perto...

Achava estranho que as pessoas não conseguissem suportar o fato de se estar só. Tinham sempre a tendência a agrupar-se, mesmo que isso as trouxesse mágoas. Pessoas eram especialistas em magoarem umas às outras, mas ainda assim preferiam as más companhias a estarem sozinhas. Tal medo, ou aversão, fazia com que recriminassem este comportamento socialmente.

Ora, ela havia aprendido a adorar a sensação de auto-suficiência que a solidão lhe proporcionava. Sensação esta, reforçada pelo enfrentamento com os pesados olhares recriminatórios. Simplesmente, por tornar-se mais forte frente a seu inimigos, crescia em vista de tais olhares. Ademais, com caneta, papel e sua liberdade de ir e vir, simplesmente amava sua própria companhia.

Talvez fosse isso. Talvez tais pessoas, amargas, não suportassem a si próprias, e não concebessem que alguém pudesse realmente sentir-se bem consigo mesmo. Traziam para elas a obrigação de constranger todos os seres donos de si, para que tais seres jamais voltassem a sair às ruas, solitários. Queriam criar um ambiente hostil à auto-suficiência e as ruas não eram nada, nos restaurantes e bares, todos andavam agrupados, com as amigas que lhes traíam, os amigos que lhes roubavam, os namorados que tanto lhes mentiam. Seres humanos que pagavam o preço de não suportar suas próprias angústias, medos, neuroses e chatices.

Sua fé nas relações humanas, nem por isso se perdia. Apenas, pensava que bengalas humanas não lhe caíam bem. Queria relações fortes, com pessoas únicas, que não lhe precisassem para desfilar na rua, ou mera companhia no almoço.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"Procure entrar em si mesmo...

Uma vez um bom amigo lhe apresentou:

"Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (...)"

Rilke, Rainer Maria Rilke lhe dava conselhos...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Inside looking out

Alguns dias olhava para fora, outros olhava para dentro.
Olhando para dentro, reparou que estavam todos sozinhos, e que assim queriam estar. Entravam e escolhiam o banco vazio, deixando um lugar a seu lado para os amigos imaginários, ou para o simples medo de conhecer o novo. Também ela havia feito isso. E ela o fazia com um propósito, já havia dito antes, a agradava a companhia de todos e de ninguém. Praticava o exercício da alteridade, buscando definir exatos os seus limites e os dos outros. Os contornos daqueles indivíduos lhe mostravam os seus próprios...
Olhando para fora quase não se perdia... via a cidade retinha, que conhecia na maior parte como a palma da sua mão. Aquelas ruas planejadas e certinhas que via e vivia desde criança, cresciam e continuavam a lhe trazer a sensação de fazer parte de um todo. Isso embora essa retidão em nada se parecesse com ela, que era tortuosa. Sabia bem onde ela começava e onde terminava essa cidade. Via os passos dos pelotenses apressados na rua... fazendo o que sempre faziam, dia após dia. Não pôde evitar se questionar, será que sabiam onde acabavam aquelas ruas retas, e onde eles mesmos começavam?