terça-feira, 20 de outubro de 2009

Só, nem ao menos Deus por perto...

Achava estranho que as pessoas não conseguissem suportar o fato de se estar só. Tinham sempre a tendência a agrupar-se, mesmo que isso as trouxesse mágoas. Pessoas eram especialistas em magoarem umas às outras, mas ainda assim preferiam as más companhias a estarem sozinhas. Tal medo, ou aversão, fazia com que recriminassem este comportamento socialmente.

Ora, ela havia aprendido a adorar a sensação de auto-suficiência que a solidão lhe proporcionava. Sensação esta, reforçada pelo enfrentamento com os pesados olhares recriminatórios. Simplesmente, por tornar-se mais forte frente a seu inimigos, crescia em vista de tais olhares. Ademais, com caneta, papel e sua liberdade de ir e vir, simplesmente amava sua própria companhia.

Talvez fosse isso. Talvez tais pessoas, amargas, não suportassem a si próprias, e não concebessem que alguém pudesse realmente sentir-se bem consigo mesmo. Traziam para elas a obrigação de constranger todos os seres donos de si, para que tais seres jamais voltassem a sair às ruas, solitários. Queriam criar um ambiente hostil à auto-suficiência e as ruas não eram nada, nos restaurantes e bares, todos andavam agrupados, com as amigas que lhes traíam, os amigos que lhes roubavam, os namorados que tanto lhes mentiam. Seres humanos que pagavam o preço de não suportar suas próprias angústias, medos, neuroses e chatices.

Sua fé nas relações humanas, nem por isso se perdia. Apenas, pensava que bengalas humanas não lhe caíam bem. Queria relações fortes, com pessoas únicas, que não lhe precisassem para desfilar na rua, ou mera companhia no almoço.

Um comentário:

  1. Muito bom Carol. Já passei por esse momento de autosufiência, não gosto muito do termo,parece arrogante, mas quando chegamos a esse ponto, parece que é quando as melhores coisas acontecem. Quando nos bastamos por nós próprios. Foi quando estava me sentindo assim que conheci o Sérgio...

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