terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Assuntos de travesseiro...

Alguns dizem que o mais importante é ter um objeto de pensamento agradável para ajudar a levantar de manhã, e embalar os sonhos à noite. Outros ainda dizem que as paixões são altamente indicadas, pois tem a capacidade de tomar conta da consciência e neutralizar quaisquer outros assuntos em pauta.
"Mesmo que platônicas?" Ela se perguntava, com a cabeça fervilhando em dúvidas. Ia então definindo... Paixões são curiosidades súbitas que vem em rompantes, e podem ser carnais ou não. Pois, havia de ser agora, passados 14 de seus 14, que ela se via vivendo um platonismo exacerbado, disfarçado de maturidade tranqüila.
Mas ela já não se sentia como então. Estava madura e tranqüila, embora se conservasse intempestiva e volúvel. Tinha mais responsabilidades para consigo e os outros, e ponderava mais.
“Então por que diachos Platão foi me achar?” Depois de recorrer aos dicionários on-line, os mais confiáveis, encontrou: "Platônico – Ideal, desligado de interesses ou gozos materiais, casto: amor platônico." Então, era isso mesmo... se encaixava nas definições. Coisa de velhos e de crianças, e só assim e então, viável.
Ela estava no meio do caminho, e não queria nada de diferente. Tinha sim, coisas em que pensar que a faziam se erguer da cama com suficiente vitalidade, e tinha também assuntos de travesseiro bem interessantes para pegar no sono com sorriso no rosto. Mas, contrariando os especialistas, nessas coisas, Platão era apenas um coadjuvante. Ela tinha ainda a sensação de que se fosse viável e não platônico, não teria lugar, nem como mero figurante.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Canção em Pedaços


Trazia no peito restos de toda a parte.
Os restos se juntavam e compunham a canção.
A canção durava o tempo do andor.
Os versos, de restos iam se tecendo e se moldando.
De certa maneira criavam eles mesmos o caminho,
Ditavam o próximo destino.
Ela se deixava levar...
Mas não cantava.

Trazia um tampão na goela, que por vezes voava com lufadas de um vento que vinha lá de dentro.
O cenário tórrido de um verão tardio e úmido era opressor, e cada um reage do seu jeito à opressão.
Tinha dias em que o tal vento só queria sair, se perder na atmosfera.
Numa rua lotada, num bar cheio de gente, quando andava na multidão.
Queria urrar, disfarçar-se de louca,
Rasgar o pano da normalidade, por uns segundos de embriaguez.

Depois, a chuva veio, pra lavar a madrugada.
Tirar as marcas da calçada
Onde a canção estava gravada.
A canção já não era nada,
A menos que fosse entoada.
Mas ela não cantava.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Mary & Max

O filme mais lindo que eu assisti nos últimos tempos... Fala de amizade, da vida, da depressão e das muitas síndromes que assolam o mundo moderno... Desejo a todos uma amizade estranha e verdadeira como a de Mary e Max!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Welcome home, Spring!


Hoje o vento trouxe um cheiro no ar... Cheiro de setembro, pólen, primavera. Promessa de coisas novas, nascentes.

Vai aquecendo e a gente florescendo... andando ao sol, correndo rua!



domingo, 18 de julho de 2010

Pra que todos tenhamos um pouco, de crianças e de loucos

Detesto despedidas.
Prendo as lágrimas, não quero assustar os pequenos.
A cena é de velório, crianças não escondem sentimentos.

Sob todos os aspectos, analiso.
Adultos orgulhosos são mais fáceis de deixar.
Viro as costas, piso firme,
salto alto, não atendo o celular.


Uma semana,
o amor acabou
e tudo volta ao seu lugar.

As crianças, por outro lado,
 pesam melhor o que se pode perder
por orgulho,
o que se pode deixar de dizer,
pra depois se arrepender.


Ou,
não medem nada,
simplesmente deixam cair as amarras,
 talvez ainda não estejam bem atadas,
e se entregam ao sentimento.


É difícil deixá-los.
As caras lindas,
os sorrisos que eu apaguei
embargam meu coração.


Eu mesma queria voltar ao ser criança,
 pra não ter que fingir.
Não viver na frigidez deste mundo de adultos,
que jogam jogos agressivos,
dançam danças sem par,
pra se esconder de si mesmos.


Só às crianças e aos loucos 
se permite o ser puro, 
imperfeito como é.
Como somos.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Against Tsunamis

À noite desceu um cheiro de umidade
que lembrava um aperto no peito.
Lembrava outras noites molhadas
em que se contorcia por não poder dominar
o que lhe era de direito.

Enlouquecia por supor o que ocorria
em territórios inalcançáveis
que ela sabia ser seu dever não adentrar.
Insegurança descarada,
disfarçada de mera distração.


A lembrança de um peito sufocado
ressalta a sensação de alívio
do ar fresco invadindo os pulmões.

Ela espreguiçou,
estalou os dedos,
alongou o corpo.

Sorveu a vida nas coisas simples,
no mundo cheio de possibilidades.

O repuxo era forte,
volta e meia.
Mas ela tinha os pés cravados no chão
e o olhar na direção certa.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Cheiro no meu gato

Eu cheguei em casa e dei um cheiro no meu gato. 
Fechei a janela pra ele não olhar pra fora. 
Tudo o que precisa ele tem bem aqui, do lado de dentro. 
Ele olhou rápido pela fresta se acabando. 
Pensou nas gatonas e gatinhas no cio, tão cheirosas. 
Pensou, mas logo esqueceu, 
e correu da sala para a cozinha, 
grudado na barra da minha saia.

domingo, 18 de abril de 2010

Lula Queiroga - Melhor do que eu sou (pensando alto)


Eu sei que você sente falta
Soube que às vezes até chora por mim
Por isso é que eu tenho aparecido pouco
Eu sei que fica mais fácil
Você gostar de mim quando eu não estou
Imaginar um sujeito ideal
Meio normal, meio louco
Todo mundo faz um filme
Com a lente da mente
E no deserto do seu coração
Prefiro ser um vulto distante
Do que um chato a mais por perto
Aposto na surpresa, num momento
Quando a gente se encontrar de novo
E demorar num beijo
Até perder a língua, a voz e a noção
Do que é que pode acontecer entre nós
Amanhã não vou te procurar
E você vai me achar melhor do que eu sou
Amanhã não vou te procurar
E você vai me achar melhor do que eu sou

Um pouquinho de Nei Lisboa


Era dos companheiros mais antigos, influência poética e musical, simplesmente um deleite:

Rima Rica/ Frase Feita
Desculpe, meu bem
Se ontem te fiz chorar
Mas a vida é assim mesmo
Não se pode exigir
Pouco dá pra esperar
Muito obrigado por tudo
Pelo teu suor, pelos teus gemidos
E espero que a minha estupidez
Cicatrize teus sentimentos feridos
Nasci e morro assim, só
Perdido no escuro, dentro de mim
E vou cruzando o barro
Vou comendo pó
Até que chegue o fim
Mas a força eu retiro
Sugo feito vampiro
De saber que as estrelas
Também vivem sós
De um cigarro amassado
De uma rua deserta
De outros que até eu posso sentir dó
Da menina de olhos grandes como a lua
De uma noite sentindo tua carne crua
E dos bares, das festas
Dos vinhos, serestas
Das mentes infestas de podres horrores
De mil desamores
Do chope das quatro
Desse louco mundo putrefato
Dessa grande peça de teatro

quinta-feira, 18 de março de 2010

Poeminha

Trocou o ar nos pulmões,

queria gritar, mas não devia.

Não era desespero.

Era exaltação.

Talvez nem mesmo pudesse gritar,

por não haver palavras,

ou grunhidos capazes de dizer.

Riu em gargalhadas.

Por nada.

Inspirava fundo e algo ascendia dentro de si.

E o riso virava rio,

Por tudo.

Era como um bocejo,

só que maior,

bem mais embaixo,

e em todo o lugar.

Por novas alternativas criativas

Sua mão estava coçando muito ultimamente. Pensava muito em questões práticas e andava esquecendo de escrever. Já não passava horas divagando, queria coisas mais palpáveis. Comer o pão, cravar as unhas na carne, morder-lhe os lábios...

Também não queria mais escrever tratados românticos, ou expor suas vivências, que desde o perigoso aparecimento de um escorpiano, andavam mais resguardadas.

Sua mente continuava indomável como antes, quando desocupada, porém, por hora permanecia atarefada com outras tarefas intelectuais. Quando lhe tinha livre, queria alçar vôo, com liberdade, mas o céu que havia criado para si mesma a aprisionava. Queria traçar linhas em primeira pessoa, ser outras, outros, ser narrador onisciente, onipresente, implacável em sua caçada literária, criativa.

Criar novos espaços, talvez... ficar incógnita, de dentro espiando para fora. Olhando por seu próprio umbigo, escondida em todos os personagens e em nenhum. Fazer o que se o seu casulo a aprisionava criativamente?

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sobre exus, algumas considerações

No ambiente inebriante à beira da lagoa, os exus bebiam e entoavam seus cantos. O cheiro era forte e o ar pesava sobre os olhos. Ela olhava fixamente para um exuzinho (ele que me perdoe se não é assim que se fala de um exu) que puxava a cantilena. Maquiado e bem vestido, em preto e vermelho, estava o exu vaidoso. Era menino, mas trazia uma camada branca sobre a pele, como resultado da aplicação excessiva de algum pancake vagabundo, que lhe conferia um leve ar de sebo de vela. Boca e bochechas enrubescidas por algum batonzinho Marchetti, ou coisa que o valha completavam o visual do demônio.

Varreu com os olhos a roda de exus malvadinhos, e constatou que a tenra idade era comum a todos, com a exceção de uma pombagira-homem, bem velha já. Mas isso não a conferia liderança, ao menos aparentemente. Esse papel era desempenhado por um exu alto e menino também, devidamente maquiado, que usava uma longa capa preta e rubra. Este tentava retirar do corpo de outro homem uma entidade maluca que lhe havia baixado, fazendo seu corpo girar. Depois, disse-lhe ao pé do ouvido uma série de coisas que a fizeram querer ser uma brisa da lagoa para colher tais palavras entre a boca e a orelha que as trocavam.

Tinha ainda uma figura especialmente cativante ao olhar. Destacava-se por vestir branco e jeans, e pelo comportamento afetado de bicha francesa. Circulava calmamente e com o nariz bem empinado. Segurava uma taça de plástico vermelho numa das mãos e na outra um cigarro longo como o da pantera cor-de-rosa. Era uma figura solene, atemporal, e tranquilamente poderia ter sido pinçada na roda dos exus e posta em um restaurante fino, que não haveria de se mal-comportar. E vice-versa. Esse era o tal exu gay que povoaria as discussões e elucubrações dos próximos dias.

Tem um que de teatral, ela pensava, argumentava com o companheiro, mais versado nas artes dessa crença. Nas roupas, figurinos, maquiagem, nessa preparação ritual, tem sim um que de teatral.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Carolinas

Na manhã anterior, acordou cedo na capital. Pôs uma roupa e aderiu ao ritual matinal. Tudo igual e ainda assim distinto. Saiu, com folga no tempo, andando devagarinho. Era domingo de manhã e a rua estava tomada de pessoas matinais incrivelmente dispostas. Definitivamente ela não era uma pessoa matinal, mas quando o dever chamava, caía da cama e ia batalhar.

Havia ainda aqueles para quem a noite não tinha terminado. A estes, os guarda-chuvas denunciavam na manhã ensolarada, afinal prevenir é melhor do que remediar, e o seguro morreu sequinho, sequinho e bêbado, lá pras bandas da Cidade Baixa.
Depois do breve passeio no coletivo, chegou ao seu destino. Prédio em frente a Redenção. O bric estava em montagem. A sala estava cheia, em torno de quarenta pessoas com algumas coisas em comum, entre elas o nome. 40 Carolinas de todos os jeitos, prá todos os gostos. Lhe impressionava a diversidade. Carolinas gordas, Carolinas magras, Carolinas altas, baixas, burras e inteligentes. Carolinas tuberculosas, Carolinas meticulosas, maniáticas. Carolinas Patrícias, Carolinas Marias. Unhas pintadas, cabelos chapados, coloridos. Jóias e bijoux, água, muita água. Caneta azul ou preta, documento de identidade para diferenciar tanta Carolina.
Pensou, pensou, detestava esperar. Ansiosa, batia com as unhas na classe, esperando causar irritação em alguma outra Carolina impaciente. Tentava também guardar as conjeturas que a mente fazia aproveitando o ócio. Essencialmente, se seu nome fosse Godofreda, jamais teria chego até aqui.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Carta

Ela pensara em escrever muitas vezes essa semana, embora não tivesse tentado uma única vez. Agora que tentava, não saía nada, nenhuma gota da garrafa seca de bebida da noite passada. Era assim que se sentia, pois tinha os pensamentos absortos em qualquer quem, qual ou que e preferia guardar pra si. O medo de proferir em voz alta, escrever e deixar registros, e fazer o pensamento ficar concreto, real.

Sua produção havia escasseado de dezembro para cá, e o blog estava com sede. Decidiu então publicar a carta de uma amiga. Uma espécie de confissão, auto-análise na busca pelo próprio conhecimento. Como ela própria enfrentava sempre muitas dificuldades em se desvendar, achava lindas e válidas essas tentativas de iluminar um dos lados da obscura personalidade de cada um.

Quando crianças, elas se escreviam, tal qual outras amigas, bilhetinhos, cartinhas e etc. Não raro essas cartinhas eram destinadas a si mesmas, com o fim de válvula de escape. Ainda assim eram enviadas e muitas vezes só faziam sentido para quem as havia escrito. A tal carta foi uma dessas,porém recente e mais madura. Parecia fazer sentido e ser bastante explicativa. Ela pensava um dia poder se definir tão bem assim.

“ (...) Precisava escrever, e me ver no papel, desenvolver uma relação dialética, acarear a teoria e a prática. Lembrei da terapia das cartas e bilhetinhos de quando éramos pequenas, então vou, novamente, escrever para ti, querendo me encontrar no destinatário. Vou me definir para quem mais me conhece. Sou uma pessoa inconstante.Ora gosto de rosas, ora as acho a expressão da dominação masculina. Confusa também, tendo a me apaixonar por pessoas apaixonadas, pela paixão das pessoas. Paciente com as crianças, estouro fácil com os adultos e me canso das pessoas, com suas manias. Acho que o tempo é o melhor remédio, mas também acho que o tempo é relativo. Tudo depende da entrega, e não me entrego fácil. Tenho medo de relações novas, e às vezes das velhas também. Tenho um cantinho secreto que é só meu. Considero a ultrapassagem uma invasão da minha liberdade. Detesto quando desconheço os outros, desconstruo a linda imagem que outrora eu tive, a substituo pela real face, às vezes até bem feia. Assim, detesto não saber o que esperar dos outros. Também quero que os outros saibam bem o que esperar de mim: tudo, ou nada. Sou oito ou oitenta, nunca me agradaram meios termos, apesar de adotar posturas diplomáticas na solução de conflitos. Não gosto de ver o circo pegar fogo, a não ser se for para deixar tudo queimar e começar de novo. Já fui carpinteira do universo. Hoje já não sou, só tenho uns rompantes. Sou insegura, embora tente demonstrar que está tudo bem. Não quero ser amada por todos, mas quero que os que me amem, amem loucamente. Às vezes me cansam as loucuras, mas são o que me encanta no ser humano. Quando gosto de alguém é de cara, não deixo para gostar depois. Normalmente sei quando vou me apaixonar e saio correndo. Quando num relacionamento sou curiosa e quero aprender logo tudo do outro. Às vezes vou até o fundo e canso, às vezes a paixão para mim está na descoberta. Normalmente me entrego demais e me encanta o conjunto. Sou melancólica, e embora o sorriso me desminta, ele às vezes é a minha armadura de guerreira. Não gosto de demonstrar fraquezas, e só as divido com meu travesseiro.

Ok, acho que já chega, ao menos pra esta carta, pois ainda tenho muito o que te contar das minhas coisas, a parte da carta que realmente te tem como destinatária. Além do mais a terapia tem que ser constante e em pequenos drops.

Bueno, mas a coisa rolou mais ou menos assim (...) Beijo, me liga. Te amo.”