terça-feira, 3 de novembro de 2009

Thanks ; )

A dor não era perene, mas a recorria de quando em quando. Não era dor de amor, pois o amor já não a habitava havia muito tempo. Suas feridas, que ela lambia desde a última sexta-feira pediam um remédio forte. Mesmo que em doses homeopáticas, estava disposta a tomá-lo. Preceitos básicos das relações humanas a haviam abandonado, e a dor a havia encontrado com os olhos rasos d’água.

Não cairiam as lágrimas, morreriam na casca, pois já não se permitia tanto sofrimento por um caso morto e enterrado. Mas, quando olhava a si mesma no espelho e via uma nova mulher, não podia deixar de pensar na outra. Chegara ao fim do fundo da dignidade humana. Pensava que talvez devesse mesmo ter estado lá para então reconhecer-se bela diante do espelho.

Amava a si própria acima de tudo, e tinha fé. Fé nas pessoas, que nem mesmo a pior delas havia conseguido abalar, e ainda, fé nas relações humanas. Esse brinquedo com que muitos adoram jogar, era para ela o jogo da verdade.

Já não acreditava no amor monogâmico de contos de fadas, e sim na amizade. A lealdade era premissa de um bom jogo. Pensava que em nada a lealdade se assemelhava à fidelidade. Em verdade, a lealdade nada mais era do que a transparência pura e simples. Por isso, queria, por vezes, não assumir compromissos, nem fazer promessas que não pudesse cumprir. No momento preferia mesmo estar neste marasmo sentimental a entregar-se novamente.

Pretendia dos outros esperar o mínimo, e assim não cair do cavalo... Mas fazer o que, se ele lhe deu naquela noite o máximo, ou talvez justamente o necessário para a fazer levantar? Por alguns instantes, palavras em vão encheram a casa, e sua alma de alegria. Poderia ter estado ali muito tempo... talvez até tenha estado.

E, por esta tal lealdade, quis ela, então, agradecê-lo. Sua boca fraquejava, e não lhe saíam palavras. Bom, o papel aceita tudo, e assim, sobre o papel em branco, agradeceu-lhe o lindo sorriso e a breve, intensa e importante companhia, embora desejasse, realmente, ter salvo o jogo na fase anterior.

Um comentário:

  1. que lindo o texto "Às sétimas séries do Afonso Vizeu" nossa, tu escreve muito bem professora (se é que ainda posso lhe dizer assim), sentiremos muito sua falta. beijos, camila

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