quinta-feira, 18 de março de 2010

Poeminha

Trocou o ar nos pulmões,

queria gritar, mas não devia.

Não era desespero.

Era exaltação.

Talvez nem mesmo pudesse gritar,

por não haver palavras,

ou grunhidos capazes de dizer.

Riu em gargalhadas.

Por nada.

Inspirava fundo e algo ascendia dentro de si.

E o riso virava rio,

Por tudo.

Era como um bocejo,

só que maior,

bem mais embaixo,

e em todo o lugar.

Por novas alternativas criativas

Sua mão estava coçando muito ultimamente. Pensava muito em questões práticas e andava esquecendo de escrever. Já não passava horas divagando, queria coisas mais palpáveis. Comer o pão, cravar as unhas na carne, morder-lhe os lábios...

Também não queria mais escrever tratados românticos, ou expor suas vivências, que desde o perigoso aparecimento de um escorpiano, andavam mais resguardadas.

Sua mente continuava indomável como antes, quando desocupada, porém, por hora permanecia atarefada com outras tarefas intelectuais. Quando lhe tinha livre, queria alçar vôo, com liberdade, mas o céu que havia criado para si mesma a aprisionava. Queria traçar linhas em primeira pessoa, ser outras, outros, ser narrador onisciente, onipresente, implacável em sua caçada literária, criativa.

Criar novos espaços, talvez... ficar incógnita, de dentro espiando para fora. Olhando por seu próprio umbigo, escondida em todos os personagens e em nenhum. Fazer o que se o seu casulo a aprisionava criativamente?

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sobre exus, algumas considerações

No ambiente inebriante à beira da lagoa, os exus bebiam e entoavam seus cantos. O cheiro era forte e o ar pesava sobre os olhos. Ela olhava fixamente para um exuzinho (ele que me perdoe se não é assim que se fala de um exu) que puxava a cantilena. Maquiado e bem vestido, em preto e vermelho, estava o exu vaidoso. Era menino, mas trazia uma camada branca sobre a pele, como resultado da aplicação excessiva de algum pancake vagabundo, que lhe conferia um leve ar de sebo de vela. Boca e bochechas enrubescidas por algum batonzinho Marchetti, ou coisa que o valha completavam o visual do demônio.

Varreu com os olhos a roda de exus malvadinhos, e constatou que a tenra idade era comum a todos, com a exceção de uma pombagira-homem, bem velha já. Mas isso não a conferia liderança, ao menos aparentemente. Esse papel era desempenhado por um exu alto e menino também, devidamente maquiado, que usava uma longa capa preta e rubra. Este tentava retirar do corpo de outro homem uma entidade maluca que lhe havia baixado, fazendo seu corpo girar. Depois, disse-lhe ao pé do ouvido uma série de coisas que a fizeram querer ser uma brisa da lagoa para colher tais palavras entre a boca e a orelha que as trocavam.

Tinha ainda uma figura especialmente cativante ao olhar. Destacava-se por vestir branco e jeans, e pelo comportamento afetado de bicha francesa. Circulava calmamente e com o nariz bem empinado. Segurava uma taça de plástico vermelho numa das mãos e na outra um cigarro longo como o da pantera cor-de-rosa. Era uma figura solene, atemporal, e tranquilamente poderia ter sido pinçada na roda dos exus e posta em um restaurante fino, que não haveria de se mal-comportar. E vice-versa. Esse era o tal exu gay que povoaria as discussões e elucubrações dos próximos dias.

Tem um que de teatral, ela pensava, argumentava com o companheiro, mais versado nas artes dessa crença. Nas roupas, figurinos, maquiagem, nessa preparação ritual, tem sim um que de teatral.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Carolinas

Na manhã anterior, acordou cedo na capital. Pôs uma roupa e aderiu ao ritual matinal. Tudo igual e ainda assim distinto. Saiu, com folga no tempo, andando devagarinho. Era domingo de manhã e a rua estava tomada de pessoas matinais incrivelmente dispostas. Definitivamente ela não era uma pessoa matinal, mas quando o dever chamava, caía da cama e ia batalhar.

Havia ainda aqueles para quem a noite não tinha terminado. A estes, os guarda-chuvas denunciavam na manhã ensolarada, afinal prevenir é melhor do que remediar, e o seguro morreu sequinho, sequinho e bêbado, lá pras bandas da Cidade Baixa.
Depois do breve passeio no coletivo, chegou ao seu destino. Prédio em frente a Redenção. O bric estava em montagem. A sala estava cheia, em torno de quarenta pessoas com algumas coisas em comum, entre elas o nome. 40 Carolinas de todos os jeitos, prá todos os gostos. Lhe impressionava a diversidade. Carolinas gordas, Carolinas magras, Carolinas altas, baixas, burras e inteligentes. Carolinas tuberculosas, Carolinas meticulosas, maniáticas. Carolinas Patrícias, Carolinas Marias. Unhas pintadas, cabelos chapados, coloridos. Jóias e bijoux, água, muita água. Caneta azul ou preta, documento de identidade para diferenciar tanta Carolina.
Pensou, pensou, detestava esperar. Ansiosa, batia com as unhas na classe, esperando causar irritação em alguma outra Carolina impaciente. Tentava também guardar as conjeturas que a mente fazia aproveitando o ócio. Essencialmente, se seu nome fosse Godofreda, jamais teria chego até aqui.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Carta

Ela pensara em escrever muitas vezes essa semana, embora não tivesse tentado uma única vez. Agora que tentava, não saía nada, nenhuma gota da garrafa seca de bebida da noite passada. Era assim que se sentia, pois tinha os pensamentos absortos em qualquer quem, qual ou que e preferia guardar pra si. O medo de proferir em voz alta, escrever e deixar registros, e fazer o pensamento ficar concreto, real.

Sua produção havia escasseado de dezembro para cá, e o blog estava com sede. Decidiu então publicar a carta de uma amiga. Uma espécie de confissão, auto-análise na busca pelo próprio conhecimento. Como ela própria enfrentava sempre muitas dificuldades em se desvendar, achava lindas e válidas essas tentativas de iluminar um dos lados da obscura personalidade de cada um.

Quando crianças, elas se escreviam, tal qual outras amigas, bilhetinhos, cartinhas e etc. Não raro essas cartinhas eram destinadas a si mesmas, com o fim de válvula de escape. Ainda assim eram enviadas e muitas vezes só faziam sentido para quem as havia escrito. A tal carta foi uma dessas,porém recente e mais madura. Parecia fazer sentido e ser bastante explicativa. Ela pensava um dia poder se definir tão bem assim.

“ (...) Precisava escrever, e me ver no papel, desenvolver uma relação dialética, acarear a teoria e a prática. Lembrei da terapia das cartas e bilhetinhos de quando éramos pequenas, então vou, novamente, escrever para ti, querendo me encontrar no destinatário. Vou me definir para quem mais me conhece. Sou uma pessoa inconstante.Ora gosto de rosas, ora as acho a expressão da dominação masculina. Confusa também, tendo a me apaixonar por pessoas apaixonadas, pela paixão das pessoas. Paciente com as crianças, estouro fácil com os adultos e me canso das pessoas, com suas manias. Acho que o tempo é o melhor remédio, mas também acho que o tempo é relativo. Tudo depende da entrega, e não me entrego fácil. Tenho medo de relações novas, e às vezes das velhas também. Tenho um cantinho secreto que é só meu. Considero a ultrapassagem uma invasão da minha liberdade. Detesto quando desconheço os outros, desconstruo a linda imagem que outrora eu tive, a substituo pela real face, às vezes até bem feia. Assim, detesto não saber o que esperar dos outros. Também quero que os outros saibam bem o que esperar de mim: tudo, ou nada. Sou oito ou oitenta, nunca me agradaram meios termos, apesar de adotar posturas diplomáticas na solução de conflitos. Não gosto de ver o circo pegar fogo, a não ser se for para deixar tudo queimar e começar de novo. Já fui carpinteira do universo. Hoje já não sou, só tenho uns rompantes. Sou insegura, embora tente demonstrar que está tudo bem. Não quero ser amada por todos, mas quero que os que me amem, amem loucamente. Às vezes me cansam as loucuras, mas são o que me encanta no ser humano. Quando gosto de alguém é de cara, não deixo para gostar depois. Normalmente sei quando vou me apaixonar e saio correndo. Quando num relacionamento sou curiosa e quero aprender logo tudo do outro. Às vezes vou até o fundo e canso, às vezes a paixão para mim está na descoberta. Normalmente me entrego demais e me encanta o conjunto. Sou melancólica, e embora o sorriso me desminta, ele às vezes é a minha armadura de guerreira. Não gosto de demonstrar fraquezas, e só as divido com meu travesseiro.

Ok, acho que já chega, ao menos pra esta carta, pois ainda tenho muito o que te contar das minhas coisas, a parte da carta que realmente te tem como destinatária. Além do mais a terapia tem que ser constante e em pequenos drops.

Bueno, mas a coisa rolou mais ou menos assim (...) Beijo, me liga. Te amo.”

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A Rua Pequenina

Ao andar pela rua pequenina, se tomou de nostalgia. Enquanto andava, reconhecia o que lhe era eterno.

A casa de Dona Maria, costureira, viciada em remédio para emagrecer, onde ainda hoje vivia a cadela galga, Fusca;

A de Dona Ema, a vizinha chata, que já não tão solitária quanto outrora, também já não havia ser tão chata, com sua dúzia de netinhos;

O salão da Nara, cabeleireira, ponto de encontro da mulherada da rua, e da comunidade negra da cidade, sempre cheio às vésperas do fim de ano.

Algumas coisas eram mutáveis na rua pequena e estreita com que desde sempre se identificara. A casa de Dona Leocádia, senhora de origem portuguesa, avó da amiga que lhe havia acolhido com carinho, não era mais a mesma. Já não tinha a pesada porta de madeira que as isolava do mundo, quando necessário.

À noite, porém, tudo voltava à sua própria eternidade. Os travestis tomavam conta das duas pontas da quadra. Às vezes se matavam pelo ponto e brigavam pelos clientes, que quase sempre apareciam em carrões.

Finalmente chegou ao seu destino, o também eterno sapateiro Sr. Valdir. Trabalhava bem e era justo ao cobrar. Encontrou-o sentado em seu cubículo, fungando um pouco de cola. Vícios, todos tinham.

Na casa ao lado, o serviço de tele-entregas, defronte, o protético e a seu lado o bom e velho cabeleireiro gay que gostava de garotinhos.

Os marcos de eternidade na identidade da comunidade da rua pequenina ali estavam, e poderiam passar desapercebidos para alguns, mas não para ela que um dia tinha feito parte daquela comunidade. Esperava que tais marcos fossem mesmo eternos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

2010... estamos aí

2009 estava a se despedir, deixando rastros de destruição. Levara o ídolo da infância, amigos de amigos, um antigo vizinho, a avó querida, um relacionamento azedo e alguns outros, desconhecidos. A morte andava por perto, tão perto que quase era possível tocá-la.

Lembrava sempre do misto de pena e incredulidade nos olhos das cartomantes, ao abrirem a carta da morte. Olhavam, coçavam o queixo, franziam a boca para um lado, erguiam a sobrancelha. Sempre tendiam a dizer que a morte era apenas uma mudança de situação, um desligamento, rompimento. Isso tudo, sempre, portas para novos mundos, novos momentos. Afinal, estavam certas de que nenhuma criatura no mundo voltaria a uma cartomante que lhes tivesse dado uma péssima notícia.

De fato, sabia ela, mortes eram mesmo mudanças, em si. Transformavam a ordem das coisas tal qual estabelecida, para compor uma nova. Essa nova ordem se constituía sobre as bases da ausência, ou, da presença da falta. Ainda assim uma nova ordem, e não necessariamente pior ou melhor que a antiga, simplesmente diferente.

Ela assistia se constituir sobre essas frágeis bases, um novo período, um novo ano. Vinda de família não religiosa, tendia a valorizar mais a entrada do ano novo, sempre com a expectativa das coisas novas e boas que viriam a acontecer. Com uma pitada de numerologia, e muitas simpatias e superstições, se preparava para o ano novo com muito afinco. Vestia roupas novas, calcinhas de cores (as cores de acordo com seus objetivos para o ano), comia lentilhas e as punha na carteira. Bebia champagne, comia uvas fazendo desejos e pulava ondinhas.

A sensação atual da ausência, o frio hálito da morte na nuca, só a faziam crer com mais força nos nascimentos e novidades que estavam por vir. Sagitariana que era, novidades em si já eram para ela motivo suficiente para alegria e entusiasmo. Então, tinha razões para crer que depois de tantas intempéries, as coisas estavam mesmo para melhorar.

Respirou fundo, se encheu de coragem. – Que venha 2010!