segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A Rua Pequenina

Ao andar pela rua pequenina, se tomou de nostalgia. Enquanto andava, reconhecia o que lhe era eterno.

A casa de Dona Maria, costureira, viciada em remédio para emagrecer, onde ainda hoje vivia a cadela galga, Fusca;

A de Dona Ema, a vizinha chata, que já não tão solitária quanto outrora, também já não havia ser tão chata, com sua dúzia de netinhos;

O salão da Nara, cabeleireira, ponto de encontro da mulherada da rua, e da comunidade negra da cidade, sempre cheio às vésperas do fim de ano.

Algumas coisas eram mutáveis na rua pequena e estreita com que desde sempre se identificara. A casa de Dona Leocádia, senhora de origem portuguesa, avó da amiga que lhe havia acolhido com carinho, não era mais a mesma. Já não tinha a pesada porta de madeira que as isolava do mundo, quando necessário.

À noite, porém, tudo voltava à sua própria eternidade. Os travestis tomavam conta das duas pontas da quadra. Às vezes se matavam pelo ponto e brigavam pelos clientes, que quase sempre apareciam em carrões.

Finalmente chegou ao seu destino, o também eterno sapateiro Sr. Valdir. Trabalhava bem e era justo ao cobrar. Encontrou-o sentado em seu cubículo, fungando um pouco de cola. Vícios, todos tinham.

Na casa ao lado, o serviço de tele-entregas, defronte, o protético e a seu lado o bom e velho cabeleireiro gay que gostava de garotinhos.

Os marcos de eternidade na identidade da comunidade da rua pequenina ali estavam, e poderiam passar desapercebidos para alguns, mas não para ela que um dia tinha feito parte daquela comunidade. Esperava que tais marcos fossem mesmo eternos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

2010... estamos aí

2009 estava a se despedir, deixando rastros de destruição. Levara o ídolo da infância, amigos de amigos, um antigo vizinho, a avó querida, um relacionamento azedo e alguns outros, desconhecidos. A morte andava por perto, tão perto que quase era possível tocá-la.

Lembrava sempre do misto de pena e incredulidade nos olhos das cartomantes, ao abrirem a carta da morte. Olhavam, coçavam o queixo, franziam a boca para um lado, erguiam a sobrancelha. Sempre tendiam a dizer que a morte era apenas uma mudança de situação, um desligamento, rompimento. Isso tudo, sempre, portas para novos mundos, novos momentos. Afinal, estavam certas de que nenhuma criatura no mundo voltaria a uma cartomante que lhes tivesse dado uma péssima notícia.

De fato, sabia ela, mortes eram mesmo mudanças, em si. Transformavam a ordem das coisas tal qual estabelecida, para compor uma nova. Essa nova ordem se constituía sobre as bases da ausência, ou, da presença da falta. Ainda assim uma nova ordem, e não necessariamente pior ou melhor que a antiga, simplesmente diferente.

Ela assistia se constituir sobre essas frágeis bases, um novo período, um novo ano. Vinda de família não religiosa, tendia a valorizar mais a entrada do ano novo, sempre com a expectativa das coisas novas e boas que viriam a acontecer. Com uma pitada de numerologia, e muitas simpatias e superstições, se preparava para o ano novo com muito afinco. Vestia roupas novas, calcinhas de cores (as cores de acordo com seus objetivos para o ano), comia lentilhas e as punha na carteira. Bebia champagne, comia uvas fazendo desejos e pulava ondinhas.

A sensação atual da ausência, o frio hálito da morte na nuca, só a faziam crer com mais força nos nascimentos e novidades que estavam por vir. Sagitariana que era, novidades em si já eram para ela motivo suficiente para alegria e entusiasmo. Então, tinha razões para crer que depois de tantas intempéries, as coisas estavam mesmo para melhorar.

Respirou fundo, se encheu de coragem. – Que venha 2010!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Vaidosa

De uns tempos prá cá andava vaidosa, com caminhar felino. Mesmo depois de sua elegia aos cosméticos, conseguiu se aprofundar ainda mais nessa área. Andava atenta demais aos detalhes, coisa que nunca fora. Tudo isso, sinais de uma paixão. Paixão nascente é coisa boa, tudo é exagerado e delicioso, claro, quando é recíproca. Neste caso era. Sentia crescer dentro de si, com uma força imensa uma louca paixão por si mesma, por ser mulher.

Perceber mais uma vez, que depois de tantos anos e sutiãs queimados, vivemos ainda no mundo dos homens, a fez entregar-se a essa paixão até os mínimos detalhes. Talvez não os mínimos, mas ainda assim detalhes demais para ela, que como já havia explicado, não era lá muito cuidadosa. Descobrira que os sutiãs por vezes eram armas a serem usadas... como num filme com Bowie que havia visto anos atrás... peitos assassinos. Peitos, bundas, bocas, cílios, num mundo masculino, todos os venenos estavam aí para serem usados.

Os escravos, antigamente, manuseavam químicas para intoxicar seus senhores... venenos eram misturados nos deliciosos manjares que as velhas cozinheiras punham à mesa para alimentar e deleitar os donos. Dores e delícias da mesa colonial, armas dos submissos, para não mais se submeterem.

Delícias femininas colocavam os homens como cãezinhos mansos, sabia ela. Assim, baixava mesmo a guarda e pintava as unhas, arrumava o cabelo e passava um gloss na grande boca que a herança genética africana lhe havia legado.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Solo

Estivera maturando idéias em crises internas nos últimos dias. Depois, veio a data, seu dia, com infindáveis comemorações, tal qual casamento de alemão. Aí se permitiu não maturar mais nada, só ir com a corrente...

Depois, os pensamentos voltaram... elucubrações sobre a solidão. Artista em apresentação solo. Solo nasce e solo morre. Faz duetos ao longo da vida, desafinados, descabelados. Depois vive o luto. O show não acaba até o solo final do artista, que segue vivendo...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Recebendo Dezembro

Depois de tormentas e tempestades, aguaceiros por todos os lados, finalmente se sentia numa grande calmaria. Pronta a se voltar a seus anseios e esquecer as habituais fugas à noite que tanto lhe consolavam e curavam as feridas, quanto por vezes às expunham ainda mais.

Carregava consigo amuletos trazidos das muitas noites de temporais que havia enfrentado. Trazia para seus textos as almas doidas que haviam cruzado seu caminho. Trazia as tristes também. Trazia a impressão de que à noite todos estavam em fuga e em busca. Fuga e busca de si mesmos.

Ela mesma andara fugindo. Fugindo do que fora e buscando o que viria a ser. Acreditava haver encontrado a quem tanto buscava, em casa, na cama, uma manhã dessas, de ressaca. Foi tomada por uma grande tranqüilidade, um sossego enorme. Sabia que não havia mais nada a procurar lá fora, na noite. Estava tudo ali mesmo, guardado dentro de seu próprio peito.

Seu dezembro havia chego trazendo calma, calor e segurança, como sempre fazia. Com o porém de talvez ser o segundo primeiro dezembro de sua vida. Após as instabilidades constantes de agosto, as lindas descobertas de setembro, os horrores de outubro e novembro, vinha agora seu dezembro, com seus panos quentes e seus calmantes analgésicos.

Faria da noite então, como dizia uma amiga, trabalho de campo, coleta de material para sua produção, que talvez não viesse agora a ser tão intensa, mas que com certeza abandonaria seu caráter um tanto incipiente.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Viagens oníricas, sonhos de outrem...

Às vezes escrever era como psicografar. Sabia que algo deveria sair, de si para o papel. Só não sabia ainda o que. Sempre fora assim. O novo olhar sobre o papel, depois de escrito, sempre a surpreendia.

Papel e caneta, sempre foram mais poéticos, como todas as coisas arcaicas, mas atualmente, quando algo tinha urgência de existir, de ser escrito, nascia direto nas teclas e na tela de seu computador. Essa sensação de ser a mão de uma caneta universal, simplesmente um meio, normalmente a acometia, e sabia que seus melhores textos não eram em verdade seus, e sim deles próprios, provenientes dessa linda vontade de nascer que a subjugava e a obrigava a escrever.

É claro, se questionava, se seriam mesmo seus os textos que concebia, e escrevia com a própria vontade? Seriam vivências e sentimentos verdadeiramente seus? Seriam realmente vivências e sentimentos de maneira geral? Ou seriam parte de um inconsciente coletivo, canalizado por ela em momentos de transe? Viagens oníricas, sonhos de outrem...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Às sétimas séries do Afonso Vizeu

Naquela manhã, ao ouvir a notícia, em um momento ou outro imaginou, que com certeza choraria, mais tarde, “na cama que é lugar quente”, como dizia uma amiga. Se fez de durona, e levou a coisa com uma pitada de alegria sarcástica, tal qual costumava fazer quando se sentia insegura. A notícia a tomou de surpresa, assim como a chuva.

Quis ainda, mais umas duas ou três vezes, ao longo da manhã, derramar uma lágrima, para aliviar os olhos, deixar-lhes transbordar.

Ao ouvir os protestos de todos os pequenos, ao lembrar que não teria tão cedo melhor motivo para sair da cama, foi de novo acometida pela enchente nos olhos. Não queria ir, embora o tempo todo estivesse esperando por isso.

E a chuva não deu tréguas, mais tarde em seu travesseiro. O conselheiro de todos os difíceis momentos, seu companheiro mais íntimo foi lavado por toda a água daquela tempestade.

Sabia ser uma mulher forte, embora por pequenos momentos se permitisse alguns pitis. Sabia que nada viria para ela que não pudesse suportar. Então, tinha certeza que outros motivos viriam a levantá-la da cama, ainda assim, tinha a plena certeza que nenhum deles teria aqueles olhinhos brilhantes e provocativos, e que muito provavelmente nenhum deles a instigaria tanto.

Depois da enchente, recolheu os panos molhados e foi estendê-los ao sol. Agradecia à vida por ter lhe proporcionado a oportunidade de ver tais olhinhos brilhando, de conhecer tais pequenos especiais. Enfim, por mais uma vez se apaixonar pela arte de educar.

domingo, 22 de novembro de 2009

Memória, marcada a ferro e fogo

Sua memória andava dizendo a que veio. Funcionava direitinho, lembrava de todos os seus números, e não eram poucos; Lembrava de todos os amores, com detalhes, sabia o que exatamente lhe encantara em cada um.

Um belo dia descobriu que havia lapsos. Notou então que guardava apenas o que lhe era agradável. Sua memória não guardava mágoas nem ressentimentos. Tinha de lutar com ela para não sorrir agradavelmente àquela pessoa que um dia tinha sido uma grande filha da puta.

Mas, as coisas mudam, a vida ensina. Rancor já não era a palavra. Ressentimento também não era exatamente o que sentia. Simplesmente havia matado certas relações em seu coração, para que fossem exatamente o que deveriam ter sido. Nada.

Havia de não conhecer tais seres, e não reconhecer em tais relações a si própria.

Marcada como a ferro e fogo estava sua memória, marcada com coisas que nem mesmo a mais relapsa das memórias poderia esquecer.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O Tempo da Vida

Nos últimos tempos lhe rondava a cabeça a idéia de abandonar a dor e o odor da putrefação e compor algo mais leve, como seu próprio estilo. Voltar às origens, esquecer de vez o que a fez como a fênix, queimar em brasa e renascer das cinzas.

Talvez devesse até mesmo agradecimentos a esses dois, afinal a dor e o prazer a fazem sentir viva. E seu renascimento, tal qual fênix, a tem feito uma nova pessoa. Mais encrespada, como gato assustado, desconfiada, é verdade, mas uma nova pessoa. Já havia dito, tem agora seu casco mais duro, a pele mais calejada.

Em história existem marcos, momentos representativos das mudanças e das transformações ocorridas, daí se exaltarem datas e grandes nomes. Na vida, assim como na história, lá estão os marcos a definir quando se passa de uma fase para outra.

Se há uma data, a data é hoje, e neste caso os grandes nomes são o seu próprio, e o do fiel escudeiro. Autor de uma certa solenidade conferida ao evento, assim como o fazia em praticamente todas as ocasiões. O fato, enfim, o tal marco, em linhas gerais, numa descrição não positivista é claro, devido à subjetividade fora a assinatura de sua própria carta de alforria, o rompimento formal com um outro tempo.

Como na história, na linha do tempo da sua própria vida, tudo era em verdade um processo, e ela mesma não ligava muito para datas. O amanhã já estava acontecendo, ali, hoje. E ademais, a próxima IDADE estava por vir... saíra da Idade Média, a das “Trevas” para entrar na Idade Moderna, curtindo o Renascimento.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Arte, ofício, necessidade 2 (um outro ofício)

A tarde estava quente e ela sentia, novamente, a sensação de torpor que o calor trazia, lembrando o verão, embora fosse, na verdade, uma primavera tardia. Obedeceu ao corpo e entregou-se à sesta, ainda que alerta, no intuito de não perder toda a tarde. Morfeu a prendia e seu filho a nutria de sonhos, fazendo com que fosse difícil, depois de haver sido envolvida, desvencilhar-se de seus tentáculos.

Sempre relutava, como se estivesse a sair do útero novamente quando tinha de acordar, tanto que por vezes preferia não dormir a ter de acordar.

De uns tempos para cá algumas coisas vinham tirando-a da cama cedo. Às seis, esbravejava, lutava mas, por fim, levantava. E tinha pela frente seu trabalho que a instigava e provocava.

Mentes abertas, febris, na puberdade, vivendo fortes emoções a cada instante eram seu instrumento de trabalho... transporta-los a outro tempo histórico, seu afazer. Talvez parecesse difícil, mas em verdade lhe encantava a possibilidade de fazer com que se identificassem a seus semelhantes no passado. Sabia que na história, haviam existido jovens o tempo todo, uns forçados a se tornarem adultos muito rápido, outros como os de nossos tempos, infantis por mais tempo, brincando com sua sexualidade.

Estes jovens de hoje a faziam sair da cama, seu mais sério caso de amor, para ir vê-los. A faziam crer na renovação de sua própria vida, e em momentos em que estava down, bastava estar com eles para tudo ir embora. Talvez, no meio disso tudo, não percebessem o que significavam para ela. E quanto a ela, tinha certo que o único jeito de retribuir era lhes dando o que tinha de melhor: educação, memória, história, sua vida inteira.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Thanks ; )

A dor não era perene, mas a recorria de quando em quando. Não era dor de amor, pois o amor já não a habitava havia muito tempo. Suas feridas, que ela lambia desde a última sexta-feira pediam um remédio forte. Mesmo que em doses homeopáticas, estava disposta a tomá-lo. Preceitos básicos das relações humanas a haviam abandonado, e a dor a havia encontrado com os olhos rasos d’água.

Não cairiam as lágrimas, morreriam na casca, pois já não se permitia tanto sofrimento por um caso morto e enterrado. Mas, quando olhava a si mesma no espelho e via uma nova mulher, não podia deixar de pensar na outra. Chegara ao fim do fundo da dignidade humana. Pensava que talvez devesse mesmo ter estado lá para então reconhecer-se bela diante do espelho.

Amava a si própria acima de tudo, e tinha fé. Fé nas pessoas, que nem mesmo a pior delas havia conseguido abalar, e ainda, fé nas relações humanas. Esse brinquedo com que muitos adoram jogar, era para ela o jogo da verdade.

Já não acreditava no amor monogâmico de contos de fadas, e sim na amizade. A lealdade era premissa de um bom jogo. Pensava que em nada a lealdade se assemelhava à fidelidade. Em verdade, a lealdade nada mais era do que a transparência pura e simples. Por isso, queria, por vezes, não assumir compromissos, nem fazer promessas que não pudesse cumprir. No momento preferia mesmo estar neste marasmo sentimental a entregar-se novamente.

Pretendia dos outros esperar o mínimo, e assim não cair do cavalo... Mas fazer o que, se ele lhe deu naquela noite o máximo, ou talvez justamente o necessário para a fazer levantar? Por alguns instantes, palavras em vão encheram a casa, e sua alma de alegria. Poderia ter estado ali muito tempo... talvez até tenha estado.

E, por esta tal lealdade, quis ela, então, agradecê-lo. Sua boca fraquejava, e não lhe saíam palavras. Bom, o papel aceita tudo, e assim, sobre o papel em branco, agradeceu-lhe o lindo sorriso e a breve, intensa e importante companhia, embora desejasse, realmente, ter salvo o jogo na fase anterior.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cosméticos

Não todas, mas muitas mulheres sentem um profundo orgulho besta ao olhar para seu arsenal de cosméticos. De todos os tipos: perfume, creminho, batom, rímel, sombra, base, pó, corretivo, cajal, delineador, esmalte, shampoo, condicionador, e até mesmo o reles sabonete tem lugar no coração das moças de todos os cantos. Fora de moda somente o bom e velho talquinho, que hoje encontra maior popularidade entre os velhinhos e as bundinhas de nenéns.

Enfim, meninas os encaram como seu material de trabalho, ou até mesmo conjunto de armas mortais. Aliados fiéis na arte da conquista, acompanham desde as feias até as mais belas. Desde as pobres, até as mais ricas, uma questão de filões de mercado, afinal obedecem todos os gostos e bolsos.

Ela mesma se achava um pouco alternativa, até desleixada em muitos momentos. Foi um clique, um tique, um lance fraco. Naquela noite se pegou fitando sua nécessaire recheada de seus companheiros cosméticos. Sentiu uma palpitação, depois teve uma atitude um pouco petulante, e ao final se envergonhou, e até riu desse tal orgulho besta que havia surgido em seu peito. Ora, amor por tais objetos, que embora sejam as armas da sedução, e por vezes os heróis da compostura, era uma coisa tão banal, que ia contra todos os seus princípios de ex-militante socialista.

Materialismo e propriedade privada dentro da caixinha transparente, e aquele amor que o apelo ao consumo a fazia sentir. Uma necessidade básica: cosméticos. Só mesmo o capitalismo para envolvê-la de maneira tão forte e imergi-la num mar de paixão cosmética.

sábado, 24 de outubro de 2009

O Poema

Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para que? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida...

Mário Quintana

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Só, nem ao menos Deus por perto...

Achava estranho que as pessoas não conseguissem suportar o fato de se estar só. Tinham sempre a tendência a agrupar-se, mesmo que isso as trouxesse mágoas. Pessoas eram especialistas em magoarem umas às outras, mas ainda assim preferiam as más companhias a estarem sozinhas. Tal medo, ou aversão, fazia com que recriminassem este comportamento socialmente.

Ora, ela havia aprendido a adorar a sensação de auto-suficiência que a solidão lhe proporcionava. Sensação esta, reforçada pelo enfrentamento com os pesados olhares recriminatórios. Simplesmente, por tornar-se mais forte frente a seu inimigos, crescia em vista de tais olhares. Ademais, com caneta, papel e sua liberdade de ir e vir, simplesmente amava sua própria companhia.

Talvez fosse isso. Talvez tais pessoas, amargas, não suportassem a si próprias, e não concebessem que alguém pudesse realmente sentir-se bem consigo mesmo. Traziam para elas a obrigação de constranger todos os seres donos de si, para que tais seres jamais voltassem a sair às ruas, solitários. Queriam criar um ambiente hostil à auto-suficiência e as ruas não eram nada, nos restaurantes e bares, todos andavam agrupados, com as amigas que lhes traíam, os amigos que lhes roubavam, os namorados que tanto lhes mentiam. Seres humanos que pagavam o preço de não suportar suas próprias angústias, medos, neuroses e chatices.

Sua fé nas relações humanas, nem por isso se perdia. Apenas, pensava que bengalas humanas não lhe caíam bem. Queria relações fortes, com pessoas únicas, que não lhe precisassem para desfilar na rua, ou mera companhia no almoço.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"Procure entrar em si mesmo...

Uma vez um bom amigo lhe apresentou:

"Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (...)"

Rilke, Rainer Maria Rilke lhe dava conselhos...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Inside looking out

Alguns dias olhava para fora, outros olhava para dentro.
Olhando para dentro, reparou que estavam todos sozinhos, e que assim queriam estar. Entravam e escolhiam o banco vazio, deixando um lugar a seu lado para os amigos imaginários, ou para o simples medo de conhecer o novo. Também ela havia feito isso. E ela o fazia com um propósito, já havia dito antes, a agradava a companhia de todos e de ninguém. Praticava o exercício da alteridade, buscando definir exatos os seus limites e os dos outros. Os contornos daqueles indivíduos lhe mostravam os seus próprios...
Olhando para fora quase não se perdia... via a cidade retinha, que conhecia na maior parte como a palma da sua mão. Aquelas ruas planejadas e certinhas que via e vivia desde criança, cresciam e continuavam a lhe trazer a sensação de fazer parte de um todo. Isso embora essa retidão em nada se parecesse com ela, que era tortuosa. Sabia bem onde ela começava e onde terminava essa cidade. Via os passos dos pelotenses apressados na rua... fazendo o que sempre faziam, dia após dia. Não pôde evitar se questionar, será que sabiam onde acabavam aquelas ruas retas, e onde eles mesmos começavam?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O TEATRO É MÁGICO

A arte dramática lhe enriquecera a alma. Saíra, àquelas duas noites intercaladas com o peito cheio de sonhos. Milhares de cores e sons, cheiros e sensações lhe circundavam. Se encontrara num mundo paralelo no qual só estivera na infância. Aliás, ela pensava ser prerrogativa básica para a apreciação de tal arte,um leve toque de imaturidade, de inocência. Ouvira as gargalhadas e as vozes em coro, e sabia que ali acontecera algo mágico. Uma reunião, no amplo sentido da palavra, uma comunhão. Ela percebeu que as pessoas que ali estiveram carregavam em si uma parcela, mesmo que ínfima, criança.
Todos permitiram que a alegria os invadisse e os fizesse esquecer que havia um mundo maior fora daquele teatro. E ela,como as crianças, se permitira encantar-se por um palhaço apaixonado e uma trapezista irrequieta. As trupes circenses, cada uma a seu modo, ficariam para sempre no coração daqueles, que então crianças, mergulharam em seu mundo de delírios.
Depois, se pegou em uma ressaca dramática, um enfaramento intelectual. Como se tivesse exagerado na dose, e precisasse assimilar. Já não sabia o que fazer com tantos sonhos. Toda a ação espera uma reação, e não sabia como reagir. Talvez devesse então, fazer uma pausa e presentear-se com um momento de introspecção. Inspirou, expirou, era momento de fazer a digestão.

sábado, 26 de setembro de 2009

Lavou, tá novo, secou, tá virgem!



Lavou, tá novo, diziam. Nada! Naquela manhã acordou cedo e foi se lavar. Tentava tirar de seu corpo as marcas das noites anteriores. Não adiantou. As marcas ficaram vincadas em seu ventre, onde de uns dias para cá, carregava uma dentadura que lhe mordia por dentro. Depois lagarteou na janela, como uma gata se debruçou, repousando a cabeça, pesada, nos braços.
Deus dá o frio conforme o cobertor, diziam. Será? Às vezes, simplesmente não se sentia capaz de suportar certas coisas que a vida lhe reservava. E este setembro não acabava. Fora um mês intenso, e não se atrevia a dar por acabado até que seu último dia se fosse. Contava nos dedos, pois se o outubro viesse tal qual setembro, seu cobertor não seria suficiente, apesar da contradição de o clima ficar cada vez mais ameno, à medida que o tempo se aproximava de seu dezembro.
A isso se somavam muitas marcas visuais. Lembranças de muitas cores e narizes de palhaços. Muitos sorrisos e gargalhadas. A comunhão com o sagrado palco a invadiu. Voltou a seu velho teatro, foi então que resolveu reencontrar seu personagem favorito, ver o mundo através dela. Rir do mundo e de si mesmo, já dizem, é mesmo o melhor remédio. E deu boas vindas à Comédia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Impressões

Impresso, imprimir, impressões.
Ela mediu-lhe os lábios, reconhecendo o território. O superior era pequenino e esforçado, enquanto que o inferior macio e reconfortante. De modo geral, não lhe eram estranhos. Tal território habitava os recônditos de sua memória e sabia já haver estado lá muito tempo antes.
Agora, sem a pressa e a avidez de outrora, entregou-se à tarefa por alguns momentos, embora o ambiente lhe parecesse estranho e inusitado. O cheiro era um combinado de colônia barata com cosméticos mofados e infestava o lugar. Não era um museu, mas louvava o antigo.
Ora, também ela louvava o antigo. Típico de quem cultua o passado, não conseguiu alcançar as mesmas sensações de antes. Era justamente o completo oposto. Se então houvera se sentido velha índia presa aos olhos de um lobo, agora sentia-se jovem e livre, uma criança com o mundo a descobrir.
O tempo é o melhor remédio, o tempo apura as curtidas e os melhores fermentados. O tempo é dividido por curtos marcos, impressões. A ela impressionavam mais uma vez, dez anos depois, os mesmos tais lábios, território de sonhos de sua infância.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Dor em DROPS

A dor não era perene. Ela se dividia em pequenos drops que lhe eram entregues nas ruas por desconhecidos, no trabalho por mal conhecidos e até mesmo por completos conhecidos, inimigos íntimos. Alguns drops a lembravam de um tempo com novas esperanças, que agora eram velhas desilusões.
Em que momento exatamente, teria ela soltado as rédeas da própria vida? Sentia-se, tal como outrora, uma velha índia, presa a um corpo jovem. O calendário foi se desfolhando, ao passo que tudo ficava mais distante. Dera as costas à própria história e fora viver uma forjada. Tudo se tinha tornado fora de controle.
Porém agora, sua vontade tinha vontade própria, e se sobrepunha. Voltar sobre os farelos de pão não podia, pois como na fábula, as aves os haviam comido. Decidiu pegar à esquerda na estrada de tijolos amarelos. Deu uma curva no lobo mau e foi à casa da bruxa má do leste tomar um chá.
Contos e fábulas haviam povoado seu imaginário desde muito cedo, e tinha superado os finais felizes, quando tinha 8 anos. Aprendeu a brincar com as possibilidades. Nem tão felizes como contos de fadas, nem tão tristes como novelas mexicanas seriam seus finais. Seriam como o soro caseiro contra a desidratação, uma pitada de sal, outra de açúcar: tal qual lágrima.
Seriam finais sem finais, finais estes sim, perenes. Como a vida, sal e açúcar na mesma lambida. Quando se brinca com possibilidades, deve-se tê-las na mão. Abrem-se portas, fecham-se portas, e ela deve apenas saber qual escolher.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Nature

Embora a linda primavera já desse sinais de extrema proximidade, vez por outra ainda se instalavam fortes ventos e bravas águas a cair.
Naquela segunda-feira cinzenta ela saiu à rua, desavisada das chuvas e trovoadas que estavam por vir. Seguiu andando pelas retas ruas de sua cidade natal, em dia de feriado.
Soprava o vento sul, com tal força que trazia seus cabelos totalmente desalinhados.
Se ela tivesse tido chance, talvez não tivesse escolhido lavar a alma daquela maneira. Ainda assim, aconteceu. A natureza se impôs e a fez assumir a estranha sensação de súbita sobriedade.
A água veio, torrencial, ajeitar-lhe os cabelos que o vento havia desfeito (gostava deles assim, escorridos). Ainda ajeitou-lhe outras coisas, deixando apenas o necessário. Foram por água abaixo, naquela tarde de segunda feira, todas as mágoas e fraquezas adquiridas nos tempos de casulo.
Do que ficou, quase nada. Quase tudo ali estava. Fez a chamada (vício de professora), braços, pernas, cabeça, sim, importante. Estava tudo ali. Apenas o necessário: corpo inteiro e peito aberto.

domingo, 6 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

Meninos

Sabia já tê-lo visto em algum lugar, por algum tempo, há muito tempo atrás. Ele, que era então um menino agora ostentava largos ombros e um corpo bem formado. Mantinha os leves traços orientais de outrora, e um ar travesso. O dia era cinza e úmido, e ambos carregavam milhares de coisas. Ele que era então um menino, levava agora um menino.
That pretty little thing... Aquela coisinha pequenina e expressiva, comunicava-se pelos cotovelos. Na carga genética, levava os olhos do pai, rasgados como os dos asiáticos. Tinha também um cabelo cor de mel, que devia ser proveniente de uma mãe, para ela desconhecida. Tinha uma graça própria da idade, devorava o mundo com os olhos, perguntava o universo e observava tudo.
Ela também observava. Ouvia, por sobre o ombro do pai, as conversações infantis. Curtia a cumplicidade entre os dois, o carinho. Aquele danadinho falava e erguia as sobrancelhas, fazendo gracinhas, tornando impossível para o pai, também um menino, não o agarrar abruptamente num forte abraço, ou pegar-lhe as bochechas, como quem quer eternizar um momento, como quem quer eternizar o menino.
Ela gostava dessas viagens de ônibus, pois tinha tempo para curtir as pessoas, como um voyer. Alguns desconhecidos lhe traziam sensações estranhamente familiares. Lembrou da infância e da infância com o seu menino, seu eterno companheiro, tão desejado. Amado com uma fraternidade dual que sua alma débil nunca conseguiu suprimir. Quis então ter eternizado todos os seus meninos, todos os meninos do mundo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

ARTE, OFÍCIO, NECESSIDADE

Abrindo suas asas por sobre este novo mundo, se entregara a um antigo hábito: escrever. Tal arte havia sido esquecida na monografia de faculdade e sentia que agora tinha uma relação mais madura com a coisa, mais pensada.
Realmente tinha certas obsessões compulsivas quanto à forma. Nunca escrevera como homem, talvez um dia viesse a fazê-lo, quando os compreendesse melhor. Já havia escrito poesia ruim e tinha medo dela em geral, embora demonstrasse uma certa atração por coisas que lhe causassem esta impressão. E definitivamente, nunca, nunca mesmo, conseguiria escrever em primeira pessoa.
Well, se a coisa é um diário, talvez fosse prudente adotar este ponto de vista... Ou trocar-lhe o nome, certo? Sim, pois preferia abandonar a idéia de um diário a ter de deixar de vivenciar estas experiências extra-corpóreas.
Também encontrava uma certa resistência em dar nomes a personagens. Na verdade tinha dificuldades em escolher nomes para tudo. Tinha medo de comprometer-se, de fazer uma escolha precipitada. De modo que quando foi dar um novo nome a seu novo brinquedinho, simplesmente não conseguiu. Assim sendo, deixou-se estar, e escreveu um diário em terceira pessoa.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Birth

Repentinamente sentiu-se livre. Estranhamente desimpedida das amarras e mordaças que a seguravam. Olhou em volta e percebeu que ainda estava trancada, de fato, naquela peça obscura. As cordas e nós ainda estavam lá, e aquele maldito pedaço de pano, ainda apertava sua língua, envolto em sua boca. Sem se mover, percebeu um cheiro doce de flores e um leve carinho caloroso de sol em seu rosto. Enfim a primavera. Sentia-se como uma borboleta, pronta para deixar seu casulo. Sabia que as amarras, assim como as lagartas, ela mesma as havia tecido.
Em um labirinto de imagens e sonhos via-se tramando fibra a fibra, as algozes de sua liberdade. Com resignação cerziu todo o seu invólucro. Só agora sabia, entendia, que tamanha resignação morava no fato de tais amarras não serem absolutamente uma mortalha. Este aroma leve e a brisa que quase podia sentir eram o prenúncio de uma transformação. Só então percebeu a física quântica, na escolha de não permanecer gorda lagarta, de ganhar asas, linda borboleta. E se acaso preferisse a noite, mariposa.
Então, deu meia-volta. Foi desfazendo cerzidos e tecidos, andando sobre seus próprios passos. Catando as lembranças que lhe fossem úteis e belas, para com elas adornar suas asas, seguiu. Com a mesma paciência usada na tessitura deste casulo, despiu-se de todas as amarras. Um a um foram caindo por terra os panos que a prendiam. Em um último esforço rumo à liberdade, cuspiu a mordaça imaginária que a calava. Enfim saiu de asas abertas para seu mundo novo, no qual tudo era o raro e imenso prazer da descoberta.